O SONHO

Por Gracilene Pinto

Quantos caminhos trilharam os pés cansados
do viajante persistente e sonhador?
E quantos sonhos ficaram abandonados
à beira dos caminhos, onde ninguém voltou?
Das tantas lutas, quantas foram inglórias?
E as derrotas, alguém já conferiu?
O desistente que alcançou vitória,
o sucesso sem luta, quem já viu?
Sonho é projeto, tem causa e efeito,
e as grandes conquistas reclamam paixão,
sem luta, sem garra, viver não tem jeito,
que o sonho precisa de força e ação.

O VELHO MERCADO

Por Zé Carlos

… ao me aproximar, ainda madrugada, ouvia o sussurrar do velho Mercado, que vinha preguiçosa e manhosamente acordando.

Ao redor, tudo era silêncio. Silêncio, silêncio, silêncio!!! Silêncio, quebrado, uma ou outra vez, pelos “tum-tuns” secos e abafados dos pedregulhos, que se vivificavam, ao “marcarem o lugar” na longa fila, para a compra de carne. Ou quebrado pelo pigarro e pela tosse seca do seu Teodomiro, salvo engano, após mais uma prolongada tragada e espessa baforoda do longo porronca, enrolado num bom pedaço de papel de embrulho. Ou quebrado pelo grito inesperado de Sassico, que estava com medo de tamanho silêncio.

Às vezes, batia um tremendo e implacável frio, a castigar o meu mirrado corpo de 7 a 8 anos. Ocasião em que buscava abrigo nos braços e pernas do meu avô-pai Antônio do Rosário e nos mingaus de milho, de Dadá, fumegantes, como só na infância tivemos, e cobertos por uma generosa camada de canela, que me enfeitiçava o olfato e o paladar, numa gula feroz.

Vovô não se contentava apenas com a compra da carne. Prolongava-se em conversas, que transitavam do engenho ao canavial. Do açúcar à cachaça. Dos bois à política. Este último tema dominava a cena. O seu assunto predileto. Era um apaixonado pela mesmo. Constatação que vou ter muito depois, ao lembrar de nossas conversas, geralmente à noite, após o seu programa sagrado e imperdível, a Voz do Brasil, a ecoar do seu imenso e potente rádio.

Mas, voltemos ao Mercado. Das conversas prolongadas à “tomação” de bênçãos. Acho que todos os pinheirenses, que permeiam as minhas lembranças, eram afilhados do meu avô. O certo é que demorávamos uma eternidade, o que para mim era uma delícia. Sempre cabia mais um e mais um mingau!

Hoje, entretanto, quando passo pelo meu Mercado, já não sinto a sua vitalidade. Já não sinto a sisudez de João de Braulina, a se acentuar com seu chapéu sisudo, também, e seu olhar distante, a escolher clientes. Já não sinto a camaradagem dos compadres de papai, que eram um pouco meus: seu Antônio Correia e seu Tarquínio. Já não sinto a sensação de que Nhô e Fernando, o braço de Judas, são-lhe habitantes eternos, a me fornecer uma boa fatia de fígado. Também, já não encontro o frescor da vinagreira, dos amarrados de maxixes e quiabos, da talhada do jerimum, da pimenta malagueta. Muito menos a plena amizade de Culete, que me tratava tal a um filho, sabendo que meu pai encontrava-se trabalhando distante. Por sempre me confundi entre Raimundo e Benedito, nunca conseguindo fazer a distinção correta dos irmãos pelo nome, determinarei, como um autêntico baixadeiro: o Culete, ao qual me refiro, é o pai de Zé Maria, do foto Alfa, e Lourdinha Mendonça, uma das melhores amigas dos corredores das minhas escolas.

Hoje, só me resta vê o meu mercado, imergido em um vazio e uma tristeza tamanha, perdido em nuances pálidas, que teimam em fugir das minhas retinas, com lágrimas vertendo em suas paredes tão sofridas que já não reconhecem nem abraçam o seu filho, que tanto o ama.
Perdoem-me, não consigo seguir!

PIABA

Por Zé Carlos

Há algum tempo, ficava revoltado, quando encontrava algum conhecido, que me chamava de “comedor de piaba”. Isso, verdadeiramente, se constituía em um grande insulto. Assim, diversas vezes, por pura criancice, vinguei-me com os helenenses e os são-bentuenses.
Comedores de tapiaca e de mussum. Quanta sandice!

Mas, o senhor de todas as razões veio passando e me trazendo a certeza de que essas referências, muito mais do que depreciarem, fortalecem as nossas relações com a nossa terra e nos dão uma imensa felicidade em ser isso mesmo. Certamente, a distância ressalta esse sentimento. Certamente, essa distância está gritando agora e bem alto por um cozidão de piaba, com um pirão de farinha seca. O que não é para qualquer um! Mas, sou um craque em comer piaba cozida. Em “uma raspada”, entre os dentes, trago só o mínimo esqueleto esquelético, a se empilhar na beirada do prato. Ainda mantenho esse hábito de colocar as espinhas ali! Para mim, não existe, ainda que esteja a postos, o prato para espinhas!

Entretanto, nada sobra, quando ela é enfiada no talo de coqueiro e frita no azeite de coco. Cachorro passa fome! Até sinto o seu croque croque, persistente, a pedir pela sua companheira inseparável, a farinha, a invadirem “os meus sentidos” e se apoderarem do meu paladar, faminto e saudoso. Vou ficar por aqui, já está bom. Se o devaneio prolongar-se, fatalmente exigirá a sagrada tigela de juçara. Aí, não respondo mais!

Hoje, o que desejo, e com orgulho, é ser chamado de comedor de piaba. E como seria bom, se, toda vez que isso acontecesse, me “trazessem” uns espetinhos e um punhado de puba!

Com certeza, não esperaria até chegar a minha casa. Havia de dar uma grande “beliscada”, ainda “no caminho”!

CHOVE

Chove lá fora…
E as águas que jorram do céu
Lavam árvores, montes,
Formam riachos
Escorrendo pelo chão.
Chove cá dentro…
E as lágrimas que tombam dos meus olhos
Sulcando a face
Lavam-me a alma,
Acalmam o coração.
A natureza é sábia,
E Deus que tudo sabe,
Tudo ouve e tudo vê,
Para lavar a alma
fez a lágrima,
Para lavar o mundo
Faz chover.
(in UM VÔO POÉTICO SOBRE ATHENAS – Imagem chuva no Maranhão)

A jaçanã e a flor de mururu

Por Gracilene Pinto

Do lago manso
O espelho refletia
As nuvens brancas
Naquele céu de abril.
E no remanso,
uma extensão se via
verde esperança
que o mururu
rebordando de lilás e azul anil
floria.
A inquieta jaçanã,
leve e faceira,
pousada, mirava-se nas águas,
ensaiando uma dança
Sem pejo e com alarde,
achando-se do lago
a dona verdadeira.
Lhe contestar, quem há de?!
Pensava, cheia de vaidade.
Se o Criador
lhe dera essa beleza,
Essa leveza e cores
De aquarela,
Que até faziam dela uma ave-flor?
Assim, desfilando sem cuidado,
pisando vai na flor do mururu,
tão delicada,
Que nenhuma outra há
que se compare
e jamais houve outra igual a ela.
Pois, no extenso jardim da natureza
a flor do mururu é entre todas
com sua humildade
a flor mais bela.

O CAMPEÃO DE CANA DE BRAÇO

Por Ana Creusa

Durante a III Ação de Graças na Jurema, ocorrida em 27 de julho de 2019, o páreo duro foi no “Campeonato de Cana de Braço”, nas modalidades feminina e masculina.

Alguns chamam esse esporte antigo, da época de José Santos, de “Queda de Braço”. Como você pode ver nas imagens, esse esporte consiste em medir forças por meio da munheca[1].

José Santos em sua juventude era conhecido como “Campeão de Cana de Braço”. O campeonato se dava geralmente nas festas dançantes.

O grande campeão desafiava a todos, com o passar do tempo, poucos se atreviam a encarar os braços fortes do campeão, que malhava seus braços com paneiros[2] de farinha ou tacho de ferro.

O campeão era melhor quando o braço estava em ângulo de 30° (trinta graus), quando parecia que iria perder a competição.

Certa noite, em um festejo, apareceu um rapazote franzino, que estava à procura de José Santos para desafiá-lo a uma peleja de Cana de Braço.

Quando o campeão viu aquele rapazinho magrinho, não lhe deu a menor credibilidade e aceitou o desafio, apenas para não desagradar o rapaz. Para surpresa de Zé Santos, o menino derrubou o braço forte do campeão, direito e esquerdo e pediu bis.

Contava José que nunca mais viu o rapaz, que sequer soube o nome. Nunca mais pôde chamá-lo para a desforra. E assim seguiu vencendo, sem que pudesse desafiar aquele rapaz, que nunca mais o avistou, nem dele ouviu mais falar.

Seria um ser do outro mundo?[3]

[1] Munheca – é a parte do corpo que faz a junção da mão com o antebraço; pulso; [2] Paneiro é um cesto feito de pindoba (folha da palmeira de babaçu) onde se acondiciona mais ou menos trinta quilos de farinha de mandioca, feijão, arroz, produtos da roça dos lavradores da Baixada Maranhense e [3] Ser do outro mundo são os seres encantados, comuns nas florestas.

Vá, e entrega-te ao vício da embriaguez!

Por Ana Creusa

José dos Santos, meu pai, era um contador de histórias. Ele estudou apenas três meses. Depois desse período, a professora mandou comprar-lhe livro de 2º ano primário.

As aulas foram interrompidas e o menino ficou com seu livro, leu e releu, memorizou todas a lições, que depois contava a seus filhos. Memorizou todos os afluentes do Rio Amazonas, margem direita e esquerda; os números do Jogo do Bicho em verso e outras histórias memoráveis.

Uma história que me marcou muito e que me causava medo, mas que contém uma lição de vida que não pode passar despercebida, trata-se da história chamada “Vá, e entrega-te ao vício da embriaguez[1]

Era uma vez um menino chamado Antônio, o Toinho, muito educado e obediente aos pais, mas tinha a mania de chamar “nomes feios[2]”, apesar das advertências constantes de sua mãe que dizia que esses nomes são do Maligno.

 Certo dia, a mãe mandou Toinho que fosse à quitanda comprar açúcar para temperar o café que já estava quase pronto.

No caminho, o rapazinho deu uma topada em uma pedra que o levou ao chão, levantou e desfilou sua insatisfação proferindo todos os nomes do seu imenso vocabulário: mi, di, borra de café …[3]

Ao levantar-se, tomou um susto ao ver um homem com vestes estranhas, com um gorro na cabeça, um cajado e forte cheiro de enxofre que lhe falou em tom autoritário:

– Por que me chamas, menino!?

– Eu te chamo?

Me chamaste sim. Eu sou o Lucífer e atendo por todos esses nomes que você chamou. Uma vez me chamando, eu tenho que fazer meu serviço e disse:

– Vá, mate seu pai; bata na sua mãe e na sua irmã.

– Como posso fazer isso? Matar meu paizinho, bater na minha doce mãezinha e na minha irmãzinha? Não poderei fazer isso!! Me peça qualquer coisa, menos isso!

– Eu não vim aqui à toa, você me chama todos os dias!

– Já que não queres cumprir a minha ordem, então: vá, e entrega-te ao vício da embriaguez.

Antônio chegou à quitanda. Não comprou o açúcar. Com o dinheiro comprou uma garrafa de cachaça, bebeu todo o conteúdo, sob o olhar admirado dos fregueses do pequeno comércio.

Quando chegou a casa estava totalmente embriagado. Seu pai veio ao seu encontro e o filho já lhe desferiu alguns golpes de fação que portava na cintura, o pai correu assustado. A mãe chegou e quis saber o que se passava, o filho lhe deu um tapa no rosto; a sua irmã também fora espancada.

Nesse momento a mãe, que era muito religiosa, percebeu que havia algo de errado com o filho e pôs a orar.

O filho caiu ao solo e dormiu. Ao despertar lembrou da ordem daquele sujeito estranho e percebeu que havia recebido ordem do Demônio para matar seu pai e bater na sua mãe e irmã e que ele havia se recusado, mas que a embriaguez possibilitou que o desejo do maligno se realizasse. Cansado, em gesto de gratidão, disse:

– Meu pai do céu, eu estava fazendo tudo que o Diabo mandou. Por pouco não mato meu pai e espanco minha mãe e minha irmã.

Antônio pediu perdão ao seu pai, mãe e irmã e lhes contou sobre a aparição e ordem que recebera do Satanás.

A partir daquele dia, o rapaz nunca mais chamou nome feio e voltou a ser o menino obediente de sempre. Aprendeu a lição de que o vício da embriaguez pode levar a pessoa a cometer qualquer desatino e até crimes.

[1] Papai contava que na história tinha a ilustração de um menino assustado com a aparição do demônio; [2] José detestava que os filhos chamassem nomes feios e [3] Mi (miserável); Di (desgraçado) e borra de café (porra).

Perdão Emília

Por Ana Creusa

Era uma vez um casal de jovens. Casamento marcado. Antes do casamento, uma dúvida atormentou o noivo:  se era, de fato, amado pela sua prometida.

Naquela época, eram os pais que acertavam o enlace matrimonial dos seus filhos, sempre levando em consideração o dote e os laços de amizade entre familiares dos nubentes.

Para testar o amor da moça, chamada Emília; Manoel noiteceu, não amanheceu. Sumiu. Passada uma semana, nenhuma notícia do noivo. Ninguém viu, nem ouviu falar sobre o paradeiro de Maneco.

Emília que tinha profundo amor pelo noivo. Paixão que alimentava desde a puberdade, torceia para que seu pai a desse em casamento ao rapaz, aos olhos dela, mais o bonito e virtuoso do lugar.

Com o sumiço do noivo, Emília entrou em profunda depressão. Não conseguia alimentar-se, depois nem água conseguia mais tomar.

Passados quinze dias naquela situação. As famílias desesperadas. Emília não resistiu e veio a óbito. Depois do velório comovente da jovem. No dia seguinte, deu-se o sepultamento.

Era noite do dia do sepultamento, quando Manoel retornou da sua viagem. Para sua surpresa, antes de chegar a casa, soube do falecimento de Emília, de puro desgosto pelo sumiço do noivo.

Desesperado, foi ao Cemitério visitar o túmulo de Emília. Aos soluços cantou:

Já tudo dorme, vem a noite em meio
A turva lua vem surgindo além
Tudo é silêncio; só se vê nas campas
Piar o mocho no cruel desdém

Depois de um vulto de roupagem preta
No cemitério com vagar entrou
Junto ao sepulcro, se curvando a meio
Com triste frases nesta voz falou

Perdão, Emília, se roubei-te a vida
Se fui impuro, fui cruel, ousado
Perdão, Emília, se manchei teus lábios
Perdão, Emília, para um desgraçado

Monstro tirano, pra que vens agora
Lembrar-me as mágoas que por ti passei?
Lá nesse mundo em que vivi chorando
Desde o instante em que te vi e amei

Chegou a hora de tomar vingança
Mas tu, ingrato, não terás perdão
Deus não perdoa as tuas culpas todas
Castigo justo tu terás, então

Mas este vulto de roupagem preta
Tombou, de chofre, sobre a terra fria
E quando a aurora despontou, na lousa
Um corpo inerte a dormitar se via

Perdão, Emília, se roubei-te a vida
Se fui impuro, fui cruel, ousado
Perdão, Emília, se manchei teus lábios.

Esta pequena canção trata-se de parte de uma ópera, cantada por nossa avó Ricardina, nas noites de serão durante  o trabalho na roca de fiar algodão, que papai José dos Santos sempre cantou para nós. Saudades eternas do nosso José.

Pesquisando na Internet, encontrei a música de Perdão Emília.

Maria Amélia Pinheiro Martins dos Santos

Por Ana Creusa

Nasceu no dia 12 de novembro de 1928, no Povoado Ponta de Baixo, município de Peri-Mirim, filha de Benvindo Mariano Martins e de Militina Rosa Pinheiro Martins. Logo após o nascimento, Maria Amélia e sua mãe retornaram ao Feijoal, onde morava seus pais, nas terras de João de Deus Martins, seu avô paterno.

Seus irmãos são: Raimundo e Ozima (frutos do 1º matrimônio do seu pai, cuja esposa morreu de parto); Raimundo João (Santinho); Maria Celeste; Terezinha; João de Jesus (Zozoca); Benvindo Filho (Benvindinho) e Iraci.

Maria Amélia era uma criança inconformada com as injustiças, era defensora de muitas crianças que seus pais criaram. Na verdade, eram crianças forçados a realizar trabalhos infantis, apenas para ganhar o pão de cada dia e aprender as primeiras letras. Essas crianças e adolescentes viviam na fazenda dos seus pais realizando os trabalhos pesados de criação de gado – como tirar leite, fazer queijo – e ainda realizavam as tarefas da roça, destinadas a extrair ração para os animais e abastecer o celeiro com alimentos, como farinha, arroz e feijão.

Ela estudou até o 2º ano primário na Escola Santa Severa, mantida pelo seu avô João de Deus, juntamente com seus irmãos e primos. Desde cedo, Maria Amélia desenvolveu o gosto pelo comércio. Segundo a sua prima Isabel, ela vendia uns cartões aos seus colegas, mesmo durante as aulas e a professora sempre a advertia dizendo “senta, Maria Amélia”.

Por não continuar seus estudos, ela desenvolveu uma frustração, pois às mulheres daquela época não era permitido sair de casa. Maria Amélia queria estudar, como fez seu primo Manoel Sebastião Pinheiro que se formou em Medicina na Bahia. Consciente do valor da educação, ela estimulou sua irmã mais nova, Iraci, a continuar os estudos no município de Pinheiro, esta fez até o 5.º ano, o que a credenciou a exercer a profissão de professora no Cafundoca, Povoado de Palmeirândia, onde se casou com Zózimo Soares.

Na adolescência, ela apreciava cultivar belos jardins, mas não tinha afinidade alguma com os afazeres domésticos, preferia cuidar do gado, montar a cavalo e andar de canoa pelos campos, práticas condenadas pela sua mãe que a queria preparando comida, tecendo redes, costurando e fazendo rendas.

Casou-se com José dos Santos no dia 25 de agosto de 1950. Seu namoro não era aprovado pela sua mãe, por preconceito social. Porém, seu pai fazia gosto, pois considerava José dos Santos um homem sério e trabalhador. Ela cuidou de não retirar o nome de sua mãe do nome de casada, apenas acrescentou o sobrenome do marido, o que era incomum daquela época. Depois do casamento foram morar na casa dos seus pais, lá nasceram seus primeiros filhos: Ademir de Jesus e Cleonice de Jesus.

Pela vontade do seu marido, eles ficariam na casa dos seus pais para sempre. Mas Maria Amélia queria ter a sua casa, conquistar seus sonhos e criar seus filhos longe dos mimos dos avós. Com isso, mudaram-se para o Cametá – no fundo da enseada da Ponta do Poço -, terra da mãe do seu marido.

Maria Amélia ganhou seu quinhão de gado e partiu para as terras do seu marido. Lá encontrou uma grande parceira, Maria Santos, a irmã de José que a ajudava em tudo, principalmente com o cuidado com as crianças. Praticamente nascia um filho por ano e assim, nasceram 10 (dez): Ademir de Jesus (in memoriam), Cleonice, Edmilson, Ricardina, Ademir, Maria do Nascimento, Ana Creusa, Ana Cléres, José Maria e Carlos Magno (in memoriam).

O seu filho mais velho faleceu com um ano e sete meses, vítima de difteria. Esse fato angustiou a jovem mãe que não teve mais alegria em sua casa tão bem construída pelo marido. Essa angústia levou José Santos a construir uma nova casa em outro local que era de propriedade do pai de sua esposa. E para lá se mudaram, antes, porém, destruíram a antiga casa e partiram para uma aventura, foram morar em uma casa improvisada, que nunca foi concluída. Acredita-se que houve arrependimento e desânimo por parte do esposo, que nunca concluiu a construção da nova casa.

Maria Amélia era a principal responsável pela educação dos filhos. O marido saía cedo para a lida na lavoura e só voltava à tardinha. Os filhos ficavam muito felizes, tanto pela presença amorosa do pai, quanto pela garantia de que a partir daí mais ninguém levava surra, as traquinagens podiam ficar para correção no dia seguinte, mas aqueles momentos eram sagrados com o pai,  que contava suas aventuras de infância e mocidade, bem como outras histórias repassadas pela sua mãe.

A formação religiosa dos filhos era motivo de preocupação dos pais. As orações antes de dormir eram obrigatórias. Reunida, a família sempre rezava uma dezena do terço, mas na época da quaresma, era um rosário inteiro, com contemplação dos mistérios e nas sextas-feiras a oração “Sexta Santa” era sempre recitada. Também aos domingos a família assistia aos cultos e, uma vez por mês à Santa Missa, celebrada pelo Padre Gerard. Os filhos desenvolveram o hábito de pedir a bênção aos pais, parentes e idosos.

Maria Amélia fazia questão que os filhos estudassem. Todos iniciaram seus estudos na Escola Sá Mendes que funcionava no Povoado Ilha Grande, tendo como principais professoras Lourdes Pinheiro Martins e Maria de Jesus (a Maria de Nhonhô). Naquela época, era costume a técnica da palmatória e as meninas se responsabilizarem pelos afazeres domésticos da casa da professora, como varrer casa, fazer comida e até cuidar dos filhos pequenos da professora. Os meninos ajudavam o marido da professora nas atividades de pecuária, muitas vezes tinham que cair no campo para ir atrás do gado. Isso, com certeza, prejudicava as atividades escolares. Entretanto, os filhos de Maria Amélia eram poupados dessas atividades.

No dia da matrícula, Maria Amélia que era brava quando o assunto era educação, já ia avisando:

– Meus filhos quem corrige sou eu, e eles não são teus empregados.

Com essa advertência, os filhos de Maria Amélia podiam estudar tranquilos. E ela ainda cuidava de orientar os filhos nesse quesito.

Com o acidente de seu marido em 20 de novembro de 1972, novos desafios ela iria enfrentar. Alguns vizinhos e amigos a aconselharam a tirar os filhos da escola para ajudarem no sustento da família. Ela sempre com a resposta na ponta da língua, dizia: – eu estou te pedindo alguma coisa? – Com a doença do pai é que eles precisam estudar mais. E assumiu os trabalhos da roça e na criação de animais e peixes e assim seguiu a vida.

Não foi à toa que seu filho caçula – Carlos Magno – mais tarde a chamava de “Galinha de Pinto”, simbolizando uma galinha que guarda a sua ninhada debaixo das asas e protege os pintinhos do ataque dos predadores, especialmente, o gavião.

Na comunidade ela praticava a medicina rudimentar. Aplicava massagens, curativos, enfaixava ossos quebrados. Depois que teve seus filhos, foi uma parteira eficiente, acompanhava as mães durante o período gestacional, orientando, inclusive, na alimentação. Verificava a posição correta do feto para o nascimento. Não raro, realizava manobras na barriga da mãe, para que a criança ficasse na posição ideal para o parto. De sorte que, nenhuma parturiente morreu em suas mãos.

Fica assim demonstrado que Maria Amélia lutava pelos direitos dos oprimidos, exercia sua função de mãe e esposa, sem descuidar em quebrar preconceituosos prejudiciais à convivência harmônica entre as pessoas. Percebe-se que ela estava à frente do seu tempo e que possui a marca dos vencedores, porque a sua força vem do espírito.

NÃO MORRI: A Antonio Gonçalves Dias no aniversário de 157 anos de seu falecimento

Por Gracilene Pinto

É mentira! Não morri!
Não morri, nem morrerei,
Nem hoje nem nunca mais.
Minha alma
já fez morada
na pátria dos imortais.
Não morri!
Minha alma vive,
Não só por algum registro
do meu nome nos anais
da História, da poesia,
quem sabe no coração
de alguém que me amou um dia…
Não morri nem morrerei,
Pois, enquanto houver palmeiras,
sabiás, grandes amores,
trovas, versos e canções
troando na voz do vento
e falando aos corações,
estarei vivo na História
e também no pensamento
de poetas e prosadores.
Perpetuarei na memória,
muito além da plêiade lusa,
que há de atravessar o tempo,
mas, também da eterna musa
que canta e geme nas palmas
louvando as aves, as flores,
e imortalizando as almas
dos humildes cantadores.
Estou vivo no cantar
do poeta apaixonado,
que, louvando seus amores
sofre chorando calado.
Não morri! Não morrerei!
Nem hoje, nem nunca mais.
Poesia é força vital.
Por essa força viverei
e não morrerei jamais
porque todo poeta é imortal!