SÃO VICENTE FÉRRER, UMA HISTÓRIA DE FÉ

Por Gracilene Pinto

Dizem que tudo começou quando o Capitão de El-Rei, Luís Gonçalo de Guimarães começou a procurar o lugar Jabutituba para seu descanso e recreação, levado pelo clima aprazível e águas piscosas. Tais fatores, juntamente com a fertilidade da terra, levaram outras pessoas a pedir Cartas de Sesmaria para ali fincar raízes.

Segundo a saudosa professora Zazinha Costa, foi isto o que ocorreu com um português de nome José Gomes da Costa, o qual se fixou no lugar chamado Tapuio, e, mais tarde, seus descendentes vieram a fundar a Vila de Frexeira, com um traçado topográfico igual ao centro histórico da cidade, no lugar onde antes havia um aldeamento indígena.

O crescimento econômico da região deve ter sido o fator primordial para que em 05/11/1805 a Rainha de Portugal assinasse uma Provisão Régia desmembrando territórios de São Bento e Viana para criação de uma nova Freguesia consagrada ao sacerdote e grande pregador espanhol. Assim nasceu a Freguesia de São Vicente Férrer do Cajapió, com dois Distritos, sendo primeiro o de Frexeira e o segundo de Cajapió. Em 25/10/1830, o Vigário encomendado Francisco de Paula e Silva, agindo em nome do Arcebispo do Maranhão, Dom Marcos Antônio de Sousa, deixou provisão para edificação da Igreja Matriz. E, em 27/08/1856 a Lei Provincial nº 432 elevou a povoação à categoria de Vila.

Considerando que as sedes dos dois Distritos já existiam quando da criação da nova Freguesia, só a cidade de São Vicente Férrer completará 217 anos em 05/11/2022, comprovadamente. Bicentenária, portanto, o que está sobejamente comprovado com provas documentais. E a autorização para edificação da sua Igreja Matriz completará 192 anos em outubro de 2022.

Assim como seu padroeiro, São Vicente Férrer tem uma história de fé e de amor. Não só no nome. Mas, também na luta daqueles que, eclesiásticos ou leigos, consagraram sua vida à praticar e propagar o Evangelho de Jesus, lutando por um futuro melhor, sem esquecer de preservar os valores primordiais ao ser humano, resistindo às vicissitudes e mantendo a esperança no futuro, sempre confiantes na Providência Divina. Sim, São Vicente também ofertou filhos seus à Igreja Católica para o labor clerical e a divulgação do Evangelho.

Esta é a nossa Terra da Carambola, terra dos campos verdes e piscosos, das festas e procissões, das lendas e dos serões, comemorando 166 anos de Município e duzentos e tantos anos de existência, onde o povo audaz e valente sempre leva à frente o estandarte do amor e da fé!
Parabéns.
Por: Gracilene Pinto
PASCOM, São Vicente Férrer-MA, Missa, 27 de agosto de 2022.

COISAS E LOAS XX (A CASA BEM ASSOMBRADA)

Por Zé Carlos

Trago comigo a casa dos meus avós, situada na esquina da rua Floriano Peixoto e da travessa Artur Sá, como uma parte essencial da minha jornada. De verdade, é uma referência forte, que me deu, me dá estrutura e me forjou para a caminhada segura e feliz; embora, algumas vezes, se apresente tão árdua e cheia de imprevistos.

A casa, de minha infância, esteve sempre repleta. Em um vivo movimento e com histórias fantásticas. Histórias, que permeiam a vida de muitas e muitas pessoas. Histórias reais, em que a presença marcante da minha avó impõe-se, a evitar, sempre, que houvesse um colapso, sem medidas.

Senão vejamos. Os meus avós receberam, como morador, o compadre AJ, com acentuados distúrbios mentais, que era o terror para nós, quando crianças. E, como crianças, em nossas curiosidades infantis, queríamos desvendar tanto mistério. O que faltava era somente a coragem. Então, só nos restava o medo, ao passar pela porta do seu quarto, sempre fechada, em um silêncio aterrador, quebrado apenas pela tosse seca e persistente, que assustava sem medida. Hoje percebo que o proibido dava-nos uma tamanha adrenalina, que nos empurrava a tentar descobrir o que não nos cabia. Mas, a verdade é que a simples menção me faz tremer ainda hoje.

Marcante, também, é o pouso de um “preto velho”, misterioso, que meu tio resgatou do frio e da fome, da fila do FUNRURAL. Ele vinha das bandas do Turi e, sem a menor cerimônia, mentia “que só”, passando o dia todo, todo dia, a comer “fumo de mólho”. Deixava-se ficar por um longo tempo, até partir, para retornar 4, 5 meses depois. Essa visita fez-se constante por anos e anos. Ao cessarem suas idas e vindas, só nos restou imaginar que já tinha feito a passagem. Partiu desta para melhor. Bateu as botas. Desencarnou.
Invariavelmente, os músicos, do interior ou de municípios vizinhos, vinham em busca de hospedagem, pois tocavam com o meu tio. Aí, eram vários dias de ensaios e um espalhar de rede pela corredor, varanda e sala, num contar de causos e gargalhadas até altas horas.
Nesse cenário, uma moradora do Bom Viver, Chica Polícia, era uma presença constante. Acho, até, que passava mais tempo na minha casa sagrada do que em sua própria. Ainda mais que estava, invariavelmente, às voltas com pendências policiais e jurídicas, vivendo em um mundo paralelo, em que buscava vantagens e mendicância, sempre.

Se parasse por aqui, já estaria de bom tamanho, mas preciso dizer que a minha avó criou muitas “filhas alheias”. O que invariavelmente rendeu boas histórias. Só, para termos uma pequena ideia disso tudo, houve uma, que, ao lhe ser pedido para verificar se o óleo, na frigideira, estava quente, mergulhou o dedo e saiu “sabrecada”. Que palavra desenterro! Infame!

E o que dizer da comadre M, moradora do Alto do Braga, que, depois de uma “descansada”, após o almoço, deitada numa rede, armada na pequena despensa, ao despertar do sagrado cochilo, questionou a minha avó. Queria saber “quem era a velhinha feia, que estava dentro da portinha a espiar”. Já estava, vejam só, incomodando!? Minha avó, um pouco cismada, foi verificar o ponto indicado e descobriu que a velhinha feia era a própria comadre, refletida no espelho do guarda-roupa, que ficava à frente da rede, em que ela descansara. Barbaridade!

E, para fechar, sem entrar no universo político, das inúmeras reuniões realizadas na sala grande, era comum encontrar, na cozinha da vovó, em serenidade impressionante, Domingas e Felicidade Bucho Pôdi, que lhe vinham pedir “abênçãos”. Haja vovó, a ser o fiel “fiel da balança” e equilibrar tudo isso!

Agora, tenho certeza de o porquê da casa da minha vida ser bem assombrada! Axé!

ENTRE MÁSCARAS E MASCARADOS

Por Zé Carlos

Em tempo de cuidar da saúde, a máscara apresentou-se como um instrumento protetor, seguro, eficaz. Ainda que suscite as mais diversas reações, é certo que vem sendo responsável pela preservação de centenas de milhares de vidas, em todo o planeta.

Às vezes, é incômoda para os mais sensíveis, para as crianças, para os arreliados. Que palavra fantástica: ARRELIA! E, só de pensar em tal, “já estou arreliado”! “Me coçando pra falar”!

Às vezes, torna-se sufocante para os privados de uma normal respiração. Também, para os sufocados em suas chatices. Às vezes, “vira” um indispensável acessório de elegância para os “descolados” e os narcisos. A verdade é que se tornou peça indispensável, uma obsessão, para os maníacos por saúde.

Às vezes, traz-nos surpresas, por demais “surpreendentes”. O rosto que idealizamos desfaz-se ou constrói-se em uma rapidez “fandanga”. Eis que surge “o mais completo desconhecido” ou a mais completa (re)afirmação de nossas expectativas.

Às vezes, a máscara prega-nos peças hilárias. Como se estivesse a minorar nossas dores. Foge displicente e lentamente, negando-nos a proteção, para se fixar bem abaixo do nariz.

Quanta ironia! E nós, perdidos em voraz apatia, seguimos alheio a tamanho sacrilégio. Ou, então, ela se torna invisível, mesmo tão “na cara”! Quantos de nós já não recorremos a “São Longuinho”, a procurá-la; e ela, ali, debaixo do queixo, a se fingir de morta, vendo a nossa insensibilidade e loucura?! Que barbaridade!

A Verdade é que a máscara veio, está e ficará conosco por um bom tempo.
Agora, temos um sério e grave problema, vêm chegando os mascarados. Sem disfarces, sem artimanhas, sem rodeios. De cara limpa. Opa! Excuse me, com a bendita máscara, que veio a calhar e se tornar a grande aliada das falácias, das caducas promessas, dos improváveis milagres.

Fiquemos com as máscaras, e não mandemos os mascarados a “pátria que os pariu”. Não. Afinal, a nossa pátria não os merece. Mandemo-los, sim, para não sermos grosseiros, ao mais e mais profundo silêncio e ao esquecimento definitivo!

O TIO BOBO VII (A VÍTIMA DO TURI)

Por Zé Carlos

Após a fúria das tempestades últimas, que inundaram o chão sedento da Chapada, as águas baixaram com uma tremenda rapidez. Algo, que impressionou a todos.

A expectativa, criada, portanto, era de uma temporada de pesca “lá pras bandas” do Turi. Afinal, “o tempo prometia”. Fartura de peixes secos, para “entupir” o paiol e garantir, até o fim do ano, o assado, a torta e o cozidão ao leite de coco.

Com essa atmosfera festiva, tio Bobo, o maior personagem e filósofo da Baixada, animou-se. Preparou o seu “balaio” e partiu, depois de acertar todos os quês e porquês, “tintim por tintim”, com um dos seus (dele) compadres, que morava nas proximidades do Rosário. A única tristeza, nessa aventura, foi não ter Zefa, a sua companheira de sempre, ao seu lado, a acompanhá-lo. Ela sabia que o Turi tem seus mistérios e seus caprichos. Pediu-lhe que fosse ao Pericumã. Mas, nada o fez mudar de opinião. Nem quando lhe disse que suas (dela) carnes não iriam ser comidas pelo rio. Vil profecia. Palavras ditas, palavras cumpridas. E, assim, a vontade do rio fez-se. O tio Bobo “viu-se às voltas” com a sezão, que ia e vinha, num ritual diário. Santo “impaludismo”!

O seu compadre desdobrou-se em cuidados. O chá de quinino fez-se onipresente e foi a sua salvação, pois já estava bem castigado. Vista turva, “injôos”, baldeação, “zumbido nozouvido”, “fastio terrive”.

Após todo esse “dileme”, o tio Bobo voltou só a “titela”. Um espírito cadavérico, sustentado em dois “cambitos”, arqueados e bambos, que incomodavam a quem os visse arrastarem-se como se estivessem dançando, definitivamente, ao sabor do vento. Até parecia que o tio Bobo trocou-se pelos peixes e foi para a secagem no jirau, de talos de palmeira babaçu.

O seu retorno foi uma delicada operação, para “uma saúde tão delicada”. Mas, enfim, viu-se em casa. E, com uma tremenda vontade de viver, recuperava-se, como dizia a minha avó, “a olhos vistos”, sob os cuidados de Zefa, que, incansável, não o deixava um minuto sequer. Haja canja de galinha!

Durante sua convalescença, na varanda do seu velho casarão, passou a tresvariar, o que levou a funda e surrada “baladeira”, dos embalos refrescantes, e o “urinol” a serem as testemunhas mudas e fiéis das inquietações, a lhe assaltar. Inquietações, traduzidas em um mar de lembranças, que lhe se apregaram com uma vitalidade tremenda, remetendo-lhe a mais fortes e inusitadas situações, que estavam adormecidas.

Assim, viu-se menino marcado pelas doenças. Sempre amarelo e barrigudo, “lombringuento”, a arrastar-se pelo terreiro, repleto de “criações”. Escapou do quebranto, com as rezas da “tia” Zuzu, que também lhe livrou de um nó nas tripas e lhe “fechou a arca”. Mas, “tinha o corpo doce”. Então, foi acometido por bexiga, “papeira, dor d’olho, ferida braba, sarampo, turica”. Sem falar, da tossizinha insistente, que mais parecia “um pinto com gôgo”. Tudo combatido com chá de todos os gostos e matizes: raiz de algodão do campo, cabelo de milho, melão de São Caetano, coquinho, buchinha, boldo. Além de leite de janaúba, mijo de vaca preta, gemada, ovo batido com farinha e açúcar, azeite de carrapato, aguardente alemã, salsa três quinas, cerveja preta.

Lembranças, que lhe faziam tremer, mas, paradoxalmente, lhe faziam um bem enorme, por mais irônico que pareça. Via-se no tempo, em que as pescarias eram recorrentes, levando-o a se entreter com chumbada, caniço, linha, para fazer a alegria de sua mãe, quando retornava com as cambadas de jejus e traíras, que iriam aliviar a fome, sempre a rondar os seus 12 irmãos. Ou espreitando e assaltando as arapucas, que, fartas, sempre se apresentavam (…) Além de que “faziam a festa”, com ele, no jogo de petecas, improvisado com as “mucajubas”; e na guerra de piões, vorazes e perigosos, feitos com o coco babaçu.

Benditas reminiscências, que o levavam a um sorriso pleno, a lhe dar a certeza de que, mesmo com todas “essas dificulidades”, valeu a pena!
Eita, tio Bobo, porreta!

O milagre do querosene

Por Ana Creusa

Era lusco-fusco, quando a mãe percebeu que não havia querosene em casa, a quitanda ficava um pouco distante, mas era o jeito: pegou meia dúzia de ovos de galinha e uma garrafinha de vidro na cor verde, para que as irmãs inseparáveis comprassem o produto na quitanda do seu cunhado.

Porém, antes a mãe recomendou:

– Se Manoel colocar pouco querosene, reclamem!

As duas irmãs entreolharam-se: como iriam fazer essa tarefa, reclamar com o tio? ela mesma não permitiria isso!

Seguiram as duas em direção ao comércio, praticar o escambo dos ovos com o querosene, modalidade de negócio muito praticado na Baixada Maranhense até os dias atuais.

Chegando ao comércio, as duas meninas pediram a troca dos ovos por querosene. Viram o tio pegar o galeão de querosene, usar o funil e colocar na garrafinha. Novamente as duas se olharam, desta feita preocupadas – a quantidade de querosene era ínfima, mal três dedos no fundo da garrafa.

No caminho de volta, já noite, o caminho escuro, as irmãs se puseram a rezar e fazer promessas para o querosene aumentar. Uma era devota de Nossa Senhora, a outra de São Benedito. Pensaram em pôr água na garrafa para “interar” o querosene, mas resolveram confiar nas orações e foram encarar a mãe.

Chegando a casa, ao entregar a garrafa para a mãe, as duas perceberam que o querosene havia aumentado, entreolham-se alegres, mas incrédulas, no mesmo instante em que ouviram a voz da mãe pronunciar:

– O que “deu” em Manoel, ele colocou bastante querosene!

As irmãs tiveram certeza que houve um milagre e ambas começaram as pagar as suas promessas e até hoje, elas têm certeza que o querosene aumentou na garrafa durante a viagem, um milagre comprovado!

*As personagens dessa história são as irmãs Ana Creusa e Ana Cléres, filhas de José dos Santos e Maria Amélia.

Princesa Isabel

Primeira senadora brasileira e primeira mulher a assumir uma chefia de Estado no continente americano, a princesa Isabel se revelou uma política excepcional nas três vezes que exerceu a Regência do país (1871, 1876 e 1888)

Em 13 de maio de 1888, ela assinou a lei Áurea que aboliu a escravidão no Brasil.

Abolicionista convicta, financiava com dinheiro próprio a alforria de dezenas de escravos.

Ela também se preocupou imensamente com a integração condigna e justa dos antigos escravos na dinâmica social e econômica do Brasil. Por isso, foi buscar incentivo ao ensino profissional.

Ela queria uma solução para o problema de como seria o futuro dos escravos, depois de libertos. Temia que, abandonados pelos antigos senhores, vivessem sem eira nem beira, em condições precárias, formalmente livres, mas, de fato, presos a um sistema que lhes impedisse o acesso a condições melhores de existência.

Compreendeu que somente a formação profissional poderia ser adequada para, naquele contexto, assegurar, aos libertos do cativeiro, uma adequada inserção na sociedade brasileira.

Correspondeu-se com o carismático sacerdote João Bosco, fundador da Congregação Salesiana. Dom Bosco foi sem dúvida, um dos maiores e mais completos pedagogos que já existiram em toda a História, com seu “método preventivo”. A princesa pediu, inclusive, que ele mandasse missionários para o Brasil, oferecendo-se para ajudar.

Infelizmente, o golpe republicano de 1889 não permitiu que a Princesa subisse ao trono e completasse a obra redentora dos cativos. O plano grandioso que concebera para a justa e digna inserção dos antigos escravos na sociedade brasileira foi abortado, ficando sem realização. A República desinteressou-se completamente pelos antigos cativos e deixou-os abandonados à sua triste condição. Até hoje, os seus descendentes pagam um pesado preço por esse abandono.

– Elisa Robson, jornalista e pré-candidata à deputada federal pelo DF.

O SONHO DE MARIA II

Por Gracilene Pinto

O sonho de Maria era a felicidade
da partilha, do amor,
da entrega irrestrita,
retrógrada e esquisita
para os adeptos da modernidade.
O sonho de Maria era,
aparentemente,
impossível, insolente,
inconsciente,
era irreal
beirando a insanidade.
Esqueceram-se todos
que, na verdade,
Deus é amor,
Deus é bondade,
e seu propósito para todos
é a felicidade.
E, sendo assim,
o sonho de Maria
tem um universo
de possibilidades.

A FANTÁSTICA GALERIA!

Por Zé Carlos

Era uma vez …

… um lugar encantado. A Baixada maranhense. Baixada, que, de tão encantada, se tornou, de verdade, a encantar os seus.

E, nesse mar de encantamento, chamou-me um pequeno recanto, por quem fui acolhido, para sentir a Princesa pulsar dentro e fora de mim, numa relação absurdamente única.
Em tal recanto, vi, ouvi e vivi as mais fantásticas práticas e belezas humanas. Belezas, que se apresentam, em minhas lembranças, vivas e pulsantes, tais quais autênticas obras de arte, a enveredarem-se por travessas e ruas, fazendo-me, invariavelmente, a alegria, nos benditos anos 70 e 80.

Que ansiedade e emoção escutar o insistente, delicioso e longínquo “piiroolééé”, enriba do apogeu da queimação da tarde, com a certeza de que a refrescância do maracujá inundar-me-ia o corpo e a alma, pois o litro já se encontrava reservado para tal. O litro, sim. Valia mais que o dólar no mercado negro.

Só quem “caçou” um litro, ou uma garrafa, sabe o prazer de escolher e desfrutar do sabor suado e especial de um “pirolé” ou de um pirulito, enfiado no palito, enfiado na tábua, repleta de furos. Sem qualquer maldade, “lembi inté os beço”!

Mas, a beleza não fica só até aí. Vem-me a figura do vendedor de peixes, com o seu cofo enfiado em um pedaço de pau, acomodado no ombro, a vender uma “pratada” de acarás ou de piabas. Que maravilha de cena, a colorir as minhas manhãs, tal uma tela de Fransoufer. Beleza, que continua, mesmo depois que a “modernidade” introduziu uma caixa de isopor, na garupa da “bicicreta” ou em um carrinho de mão. A pureza d’alma ainda permanece!

E, as telas não param por aí. Eis que surge o vendedor de verduras, com a clarividência de todo dia, a adivinhar que o cozidão reclama por maxixe, quiabo, “jermum” e vinagreira. Um desfilar de cores, cheiros e sabores, a temperar a minha infância, em definitivo.

Nas mesmas passarelas, vêm surgindo os entregadores do Teimosão, a matar a curiosidade e a sede de saber. O entregador de pão, deslizando, madrugada a dentro, em perfeito silêncio. O entregador de leite, com uns canjirões gulosos e encardidos, a engolir a faminta caneca, que nunca estava saciada. Também, em suas empolgações, os vendedores de murici, de camarão, de marrecas, de frigideiras, de panelas, de papeiros, de bacias, de penicos, de bananas. Este último, em minha casa, não tinha vez. Bananas só eram adquiridas no seu Alvino ou no seu Zé de Cristina. Outras não tinham gosto! Haja manias!
Manias, que me levavam à procura dos vendedores de São Bento, para comprar queijo e jaçanãs. Não há queijo igual! Já as jaçanãs eram as mais gordas! Acho que eram mais jaçanãs que as nossas jaçanãs! Haja manias!

Religiosamente, às vésperas do Natal, recebíamos o vendedor de joias, que me fascinavam com as suas maletas, recheadas de rolos, recheados de preciosidades. Quanta vontade de ficar com tudo!

Nesse fantástico cenário, despontava o rei, além do Momo. O rei dos vendedores. Sem igual! Fula! Com o seu inseparável búzio, a anunciar “baguinhos, cabeças gordas, jejus, traíras … num festival de gracejos, ditos e relaxos. Num festival de alegria!

Também, desfilavam os cobradores. Pouquíssimos, por sinal. Vislumbro o das Casas Pernambucanas e o da Casa Saldanha, que apareciam, geralmente, com mais acanhamento do que os devedores.
Ah, tempo de pinturas fantásticas! Uma verdadeira galeria!

GONÇALVES DIAS E DOM SEBASTIÃO, DUAS FIGURAS ENCANTADORAS (OU ENCANTADAS?)

Por Gracilene Pinto
Não sei se pela personalidade ou pelo caráter lendário de suas biografias, duas figuras da História sempre me encantaram: o monarca português Dom Sebastião e o poeta Antônio Gonçalves Dias.

Dom Sebastião, com o misterioso desaparecimento em Alcácer-Quibir, se imortalizou no coração do povo português, que ficou sempre à espera do seu retorno. No entanto, talvez em razão do clima tenso das lutas políticas em Portugal, em busca de paz Dom Sebastião haja escolhido a mais lusitana das províncias brasileiras, o Maranhão, para se encantar no repouso paradisíaco da Ilha dos Lençóis, onde o povo o recebeu com fé no coração: O Desejado Rei Sebastião.

Gonçalves Dias, nasceu em Caxias – Maranhão, mulato, de origem pobre, quando isso ainda era um verdadeiro estigma, por circunstâncias da vida estudou na Europa, foi poeta, advogado, jornalista, etnógrafo e teatrólogo, um expoente do romantismo e do indianismo brasileiro. Mas, entre tantos atributos foi a poesia que o imortalizou, quando cheio de saudades da Pátria escreveu Canção do Exílio, um dos mais belos poemas da língua portuguesa:
Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá…
Não permita Deus que eu morra sem que volte para lá…
sem qu´inda aviste as palmeiras onde canta o sabiá.
e, entre outros poemas maravilhosos da sua riquíssima lavra, quando escreveu a mais bela declaração de amor à paixão da sua vida, Ana Amélia Ferreira do Vale, o Ainda Uma Vez Adeus.
Enfim te vejo! – enfim posso, curvado a teus pés dizer-te
que não cessei de querer-te pesar do quanto sofri…

Por tudo isso, em 03/11/2020, dia em que se rememorava o falecimento de Antônio Gonçalves Dias a bordo do navio Ville Bologna, na Baía de Cumã, em Guimarães, me vi, de repente, pensando que, a despeito dos outros títulos auferidos por ele e de ser patrono da Cadeira nº 15 da Academia Brasileira de Letras, que eu saiba, o poeta não foi membro de nenhuma academia. Não precisou disso. Sua obra o imortalizou. E, quem sabe se, assim como a fé pública encantou Dom Sebastião na Ilha dos Lençóis, Gonçalves Dias não haja se encantado também nos baixios de Atins, de onde já podia avistar suas amadas palmeiras, mesmo que do sabiá só pudesse ouvir o canto na imaginação. Olha, que imaginação de poeta é coisa milagrosa! Acho até que foi por isso que pensei ter ouvido a voz de Gonçalves Dias afirmando cheio de certezas:
É mentira, não morri! Não morri nem morrerei Nem hoje nem nunca mais,
Minha alma já fez morada na pátria dos imortais.

O SONHO

Por Gracilene Pinto

Quantos caminhos trilharam os pés cansados
do viajante persistente e sonhador?
E quantos sonhos ficaram abandonados
à beira dos caminhos, onde ninguém voltou?
Das tantas lutas, quantas foram inglórias?
E as derrotas, alguém já conferiu?
O desistente que alcançou vitória,
o sucesso sem luta, quem já viu?
Sonho é projeto, tem causa e efeito,
e as grandes conquistas reclamam paixão,
sem luta, sem garra, viver não tem jeito,
que o sonho precisa de força e ação.