A Presença Infinita de Maria Amélia

Por Ana Creusa

Mergulhar na trajetória de Maria Amélia, buscando traduzir a força da mulher que foi o alicerce de sua família e a guardiã de sonhos, é revisitar um passado que insiste em não passar!

Completam-se hoje quatro meses desde que o relógio da vida de Maria Amélia Pinheiro Martins dos Santos silenciou, naquele 27 de outubro. Para quem ficou, o tempo parece ter uma contagem própria: não são apenas 120 dias, mas quatro ciclos de lua onde a saudade aprendeu a ocupar os cômodos da casa do Outeiro da Cruz que ela e papai fizeram no intuito de abrigar a prole para sempre.

Falar de Maria Amélia é falar de uma mulher que nunca coube nos moldes estreitos de seu tempo. Nascida sob o sol de Ponta de Baixo, povoado do município de Peri-Mirim/MA, ela trouxe consigo a firmeza de quem sabia que a vida exigia mais do que apenas aceitação.

A frustração por não ter seguido os estudos transformou-se em uma missão sagrada: nenhum filho seu seria privado do saber. “Meus filhos não são teus empregados”, dizia ela à professora, com a autoridade de quem protegia a educação como um tesouro.

Ela era a “Galinha de Pinto”, como carinhosamente dizia Carlos Magno. Debaixo de suas asas, a prole cresceu protegida dos gaviões do mundo e das injustiças que ela tanto combatia. Maria Amélia não era apenas mãe; era a justiça de mãos calejadas, a médica rudimentar que curava corpos e almas, trazia vidas ao mundo com a precisão de quem tinha o espírito guiado por algo maior. Nenhuma parturiente perdia a vida em suas mãos, pois a morte parecia recuar diante da sua determinação.

Hoje, quatro meses após seu encontro definitivo com o companheiro José Santos e o filho Carlos Magno no Jardim da Paz, a ausência física é um fato, mas sua essência é uma herança viva. Ela está em cada oração da “Sexta Santa” que ainda ecoa na memória, em cada pé de planta dos jardins que ela tanto amava cultivar e no rigor ético que deixou para seus filhos.

Quatro meses sem o seu olhar vigilante, mas com a certeza de que a “Ação de Graças na Jurema” agora conta com uma intercessora no céu. Maria Amélia não partiu; ela apenas mudou de plano, deixando para trás o exemplo de que a verdadeira força não vem do corpo, mas de um espírito que, mesmo aos 96 anos, nunca deixou de lutar pelos oprimidos e por sua família.

Maria Amélia que, durante décadas governou a casa e criou os filhos com um pulso forte e uma disciplina inabalável, viu o tempo inverter os papéis de forma inesperada. Com o avanço da doença, aquela postura séria e o olhar de autoridade deram lugar a uma doçura esquecida, como se ela tivesse decidido retornar aos dias de sol da própria infância. No apagar de sua luz, longe das preocupações com as obrigações do lar, seus olhos brilhavam ao ganhar uma boneca nova e sua maior alegria residia no prazer simples de saborear um doce, revelando uma leveza que a rigidez da vida adulta havia mantido escondida por tanto tempo!

A imagem da foto destacada revela o exercício de pintar figurinhas se tornou uma ferramenta poderosa para amenizar os efeitos da doença, permitindo que ela vivenciasse o presente com a leveza de uma criança. Ela pintou muitos livros – guardados como o acervo do Amor.

Que o tempo, esse senhor da razão, transforme a dor destes quatro meses na mais pura e doce Gratidão por termos caminhado ao lado de uma gigante. Maria Amélia permanece, agora e sempre, na raiz de cada história que contamos.

José Santos, o patriarca do Amor

Por Ana Creusa

Hoje, o calendário marca 25 de fevereiro. Para muitos, apenas um dia comum; para nós, o marco de nove anos de uma ausência que se transformou em presença constante por meio do exemplo. José Santos não foi apenas um homem; foi um projeto de vida bem-sucedido, nasceu em Palmeirândia e criado nas dificuldades do Sítio Jurema.

Há exatos 9 anos, o Guerreiro da Jurema atendia ao chamado do Pai. Em um sábado consagrado à Maria, José Santos nos ensinou que a partida pode ser um ato de união. O leito de hospital preenchido por sua descendência, transformando a dor em uma despedida digna de sua nobreza. Que ele continue intercedendo por nós lá do alto, onde a alegria é infinita.

Filho de Ricardina, uma mulher negra e solo, José carregou no sangue e na pele as contradições de um Brasil de bailes divididos. Mas ele nunca permitiu que as cercas do preconceito limitassem o tamanho do seu espírito. Com apenas três meses de escola, ele fez do “Livro do 2º Ano” o seu Universo. Enquanto outros precisavam de bibliotecas, José precisou apenas da vontade: decorou afluentes do Rio Amazonas, memorizou lições de moral e transformou o pouco saber em uma sabedoria que nenhuma faculdade ensina.

A Missão que Venceu o Sonho

O Exército Brasileiro perdeu um clarinetista, mas a família Santos ganhou um herói. Ao abdicar da carreira militar para cumprir a promessa feita à mãe no leito de morte, José tornou-se o general de uma tropa de irmãos. Cuidou deles, do mais velho ao pequeno Manoel, de apenas quatro anos. Com mãos que amansavam burros bravos e venciam na “cana-de-braço”, ele também conduziu, com doçura e firmeza, o destino de uma linhagem.

Sua autoridade era natural. Não precisava de gritos, apenas de presença. A imagem dos irmãos — depois homens feitos e oficiais da lei — cedendo-lhe a cabeceira da mesa é o retrato mais puro do que significa respeito.

O Amor e o Legado

Ao lado de Maria Amélia, sua companheira de vida e de fé, José construiu um jardim de onze filhos. Ele não era apenas um pai; era um educador nato. Ensinava enquanto trabalhava, liderava a comunidade de Cametá em Peri-Mirim pelo exemplo e mantinha o sorriso fácil de quem sabia que a verdadeira riqueza não se conta em moedas, mas em união.

Aos 94 anos, como quem fecha um ciclo divino, ele realizou seu último e grande desejo: construir sua casinha na Jurema, o chão onde tudo começou, para celebrar a mãe que lhe deu a vida. José partiu em 2017, mas deixou as sementes da “Ação de Graças” plantadas no coração de Cametá.

A Imortalidade

José Santos ocupa a Cadeira nº 24 da Academia de Letras, Ciências e Artes Perimiriense (ALCAP). É justo. Um homem que leu o mundo com os olhos da alma e escreveu sua história com a tinta da honradez merece a imortalidade.

Pai, nove anos se passaram. O senhor não está mais fisicamente em São Luís ou na Jurema, mas cada vez que nos reunimos, cada vez que um de seus descendentes escolhe o caminho da retidão, é o seu clarinete que ouvimos tocar.

A Jurema está em festa: Ana Cléres é eleita imortal da ALCAP

Por Ana Creusa

A cultura e a intelectualidade de Peri-Mirim ganham um novo brilho. A presidente da Associação Ação de Graças na Jurema, Ana Cléres Santos Ferreira, foi eleita como membro efetivo da Academia de Letras, Ciências e Artes Perimiriense (ALCAP).

A chegada de Ana Cléres à Academia não é apenas um reconhecimento ao seu mérito pessoal, mas um marco para a região. Sua eleição reafirma o compromisso da ALCAP com:  a valorização da cultura local; preservação da memória e fortalecimento institucional, unindo o trabalho social ao universo das letras e artes.

Com uma trajetória pautada pela superação pessoal e dedicação à comunidade, Ana Cléres agora leva sua voz e sua força para uma das instituições mais respeitadas da nossa região. É a prova de que a ação social e o saber caminham de mãos dadas!

“Uma conquista que celebra a identidade e o futuro da nossa terra.”

A Presidente da Associação Ação de Graças na Jurema, Ana Cléres, agora une sua força comunitária ao prestigiado corpo da ALCAP. Essa conquista é um marco na vida da dedicada presidente. Parabenizamos Ana Cléres por esse reconhecimento tão merecido! Que seu caminho na Academia continue iluminando a história de Peri-Mirim.

Ação de Graças na Jurema: celebração de bênçãos

🏅 Ação de Graças na Jurema: celebração de bênçãos!

Os eventos são realizados no Sítio Jurema (Povoado Cametá, município de Peri Mirim, Maranhão), nossa celebração é mais do que um evento; é o reflexo de uma comunidade que caminha de mãos dadas.

A importância da união e do carinho entre nós se resume em quatro pilares fundamentais:

  • Fortalecimento dos Laços: A união entre os membros cria conexões profundas, promovendo um ambiente de apoio e solidariedade constante;

  • Criação de um Espaço Especial: O carinho e o amor compartilhados transformam a Jurema em um lugar único e significativo, onde cada pessoa se sente verdadeiramente valorizada;

  • Impacto Positivo: O apoio mútuo e a energia vibrante de nossa gente tornam nossa jornada coletiva muito mais rica e gratificante e, por fim a

  • Celebração das Bênçãos: Estar junto nos permite celebrar conquistas e agradecer em comunhão. Por isso, culminamos nossa jornada com o Culto em Ação de Graças.

O chão de Ricardina: a raiz que se fez promessa

Por Ana Creusa

No mapa da Baixada Maranhense, o município de Peri-Mirim guarda um segredo que não está nos livros, mas no balanço das folhas e no toque do tambor. No Povoado Cametá, existe um pedaço de chão que desafia o tempo e o esquecimento. Ali, o verde não é apenas uma cor; é uma herança.

Tudo começou com um batismo de amor e resistência. Foi Ricardina Santos quem, com a sabedoria de quem lê o destino pelas plantas, deu nome ao lugar: Sítio Jurema. Em um tempo onde a Mimosa tenuiflora — a Jurema Sagrada — começava a sumir das matas da Baixada, tornando-se uma relíquia quase em extinção, Ricardina fincou uma bandeira espiritual. Ao nomear o sítio, ela não apenas designou uma propriedade; ela criou um santuário. Ela disse ao mundo que, naquele solo, a árvore que guarda a ciência dos mestres teria um lar afetuoso.

O tempo passou, as raízes de Ricardina aprofundaram-se na terra, e foi de seu sangue que brotou o braço forte para erguer a celebração. Seu filho, José dos Santos, compreendeu que a gratidão é a forma mais alta de magia. Ele idealizou a Ação de Graças na Jurema, transformando o sítio em um ponto de encontro entre o céu e o torrão maranhense.

José não queria apenas uma festa; ele queria um retorno. Se a Jurema nos dá a sombra, a cura e o vinho que clareia a mente, o que damos nós em troca? A resposta veio no banquete partilhado, no cheiro da terra que sobe aos céus e na mesa farta que recebe o mestre e o aprendiz com o mesmo carinho.

Hoje, quando o sol se põe em Peri-Mirim e as luzes do Povoado Cametá começam a brilhar, o Sítio Jurema se transforma. A árvore, antes abundante, agora é raridade, mas aqui é soberana. Cada vez que uma Ação de Graças é realizada, o espírito de Ricardina sorri na brisa, e as mãos dos filhos de Ricardina – por meio de sua descendência – continuam a tecer a rede que une a comunidade.

Celebrar a Ação de Graças no Sítio Jurema é lembrar que somos todos filhos de uma semente plantada por quem veio antes. É saber que, enquanto houver um Santos zelando pelo lugar, a Jurema nunca deixará de florescer no Universo!

PERI-MIRIM: Academia divulga a lista completa dos novos membros eleitos

A recente eleição dos novos membros da Academia de Letras, Ciências e Artes Perimiriense (ALCAP) reafirma o compromisso desta instituição com a valorização da cultura, da memória e do fortalecimento institucional.

Segue abaixo a relação nominal final dos eleitos para as vagas remanescentes. A eleição foi realizada nos termos do Edital e da divulgação pela Diretoria da Academia nos meios oficiais. Conheça os candidatos eleitos para integrar quadro de novos imortais da ALCAP:

Cadeira nº 01Lourivaldo Diniz Ribeiro
Patrona: Naisa Ferreira Amorim

Cadeira 04Maria do Carmo Pereira Pinheiro
Patrono: Manoel Sebastião Pinheiro

Cadeira nº 05Taliane de Jesus Corrêa Gonçalves
Patrono: Ignácio de Sá Mendes

Cadeira 29Eunice Diniz Pereira (Dona Nicinha)
Patrono: Raymond Roger Gérard Gagnon (Padre)

Cadeira 30Cíntia Cristina Martins Serrão
Patrona: Carmem Martins

Cadeira 31Luís Fábio Pereira Maia
Patrono: José de Jesus Pereira Campos (J. Campos)

Cadeira 32Ana Cléres Santos Ferreira
Patrono: Adelar José Álvares Mendes (Dedeco)

Cadeira 33Sidlayne dos Santos Martins Melo
Patrono: Raimundo Martins Nunes (Sipreto)

Cadeira 34Edielson Lima Almeida (Paim)
Patrona: Maria de Jesus Castro Martins (Dona Morena)

Cadeira 35Ana Maria Correa Barbosa
Patrona: Maria Madalena Nunes Corrêa

Cadeira 36Manoel de Jesus Campos (Santiago)
Patrono: Raul Pinheiro Mendes

Cadeira 37Laércio Lúcio de Oliveira
Patrono: João Batista Pinheiro Martins

Cadeira nº 38Márcio Mateus Câmara
Patrono: Fernando Ribamar Lobato Viana

Cadeira 39Luís de França Melo Nascimento (França)
Patrono: João Helder (Padre)

Cadeira 40José Gutemberg Mendes (Zé de Floriano)
Patrono: Floriano Pereira Mendes

A posse oficial acontecerá no dia 23 de maio de 2026, marcando o início de uma nova etapa de contribuições, diálogo e fortalecimento da nossa instituição. Desejamos sucesso aos(às) eleitos(as) e damos as boas-vindas a essa nova jornada!

 

Peri-Mirim: Sargento César, um vocacionado!

Augusto Cesar Ferreira Castro, Sargento César, como é conhecido, nasceu em 10 de fevereiro de 1968, no Povoado Patrocínio, no município de Peri-Mirim/MA, filho de Rosilda Ferreira de Castro e de Antônio Lopes Amorim, vulgo Totó Amorim.

Tem uma família numerosa, formada por 10 (dez) irmãos por parte de sua mãe Rosilda Castro. Ao todo são 24 (vinte e quatro) irmãos.

Tem quatro filhos: Augusto Cesar Ferreira Castro Filho, Carlos Augusto Leite Silva Castro, Emanuel Silva Castro e Maria Clara Leite Castro.

Desde a sua infância, trabalhou na roça, juntando coco babaçu, tirando leite de gado, fazendo queijo e vendendo leite. Morava no Povoado Patrocínio, frequentava a escola na sede do município, tinha como meio de transporte o cavalo, que no período do inverno era complicado trafegar em caminhos encharcados e escorregadios, além de ficar todo molhado. Os livros e cadernos iam enrolados em sacos plásticos.

Quando mudou para a sede com sua mãe, para ajudar na despesa da casa, trabalhava torcendo fio, para tecer rede. Nos finais de semana ia pescar, saía da sede até Ilha do Urubu, de onde vinha por volta das 13 horas com cofo de peixe para alimentar a família.

Dada a dificuldade de transporte, mais tarde, ele e seus irmãos foram morar na sede com a mãe, indo para o Patrocínio somente nos finais de semana, onde retomava as atividades rurais, juntamente com seus pais e irmãos.

Sua vida escolar foi marcada por dedicação e disciplina. Fez o antigo primário na Escola Municipal Carneiro de Freitas, cursou o Ginásio na Escola Cecília Botão e o Ensino Médio no Colégio Artur Teixeira de Carvalho (CEMA), todos em Peri- Mirim/MA.

Lembra com carinho de vários professores, como: Sandra Gorethi, Conceição, Ana Célia, Ildenira, Taninho, Batista e outros. Mas, a Dona Natividade que morava casa de Maria Oliveira, foi que a mais marcou sua vida escolar, ela ensinava no Colégio Carneiro de Freitas, seus familiares são do Povoado Conceição, por isso, ela precisava morar na sede, na casa de Maria Oliveira.

Em 1987 prestou concurso para Polícia Militar, formando-se em Pinheiro para servir a briosa Polícia Militar. Iniciou a carreira militar em Pinheiro/MA, posteriormente transferido para Perim Mirim, onde trabalhou por vários anos.

Em 1992 foi aprovado no curso de formação de Cabo em São Luís. Retornando a trabalhar em Peri Mirim. Passou vários anos como Cabo da Polícia, após ser promovido a Sargento. Ainda hoje, várias pessoas o chamam de Cabo César. Para ele não importa chamá-lo de Cabo, apesar de ser Sargento, sempre foi essa pessoa humilde.

Também trabalhou nos municípios de Bacurituba, São Bento, Cajapió, Matinha, São Vicente, dessa forma, trabalhou em muitas cidades da Baixada Maranhense. Participou de várias missões em todas as cidades do Maranhão em missões operacionais da Polícia Militar do Maranhão.

César lembra com saudades que conhece todas as cidades do Maranhão, trabalhando em missões especiais pela Polícia Militar do Maranhão, que se orgulha de ter servido.

Foi indicado para servir na Força Nacional onde trabalhou por vários meses em missões iniciando em Belém/Pará e em várias cidades do Pará. Participou de operações até em Maceió/AL, em missões da Força Nacional.

Além de ter servido a Força Nacional serviu no  Grupo de Operações Especiais (GOE)  de Pinheiro por vários anos, onde lá completou seu tempo de serviço, pedindo a Reforma, tomando essa decisão por já ter combatido o bom combate, encerrando a carreira e guardando a Fé em Deus e na Justiça.

Trabalhou por 30 (trinta) anos na Polícia Militar do Maranhão, completando tempo de serviço para pedir a reforma, começando outra missão no meio político e comunitário. Na esfera política, concorreu pela primeira vez a uma eleição para Vereador em 2024, em que foi muito bem votado, ficando como primeiro suplente.

Com tudo que passou, as dificuldades da vida só fizeram do Sargento César um pessoa mais forte, vencendo os obstáculos da vida. Afirma ele que: “Graças a Deus que venceu e hoje uso meu tempo ajudando as pessoas que às vezes estão em situações difíceis , por isso, me sinto bem em ajudar o próximo”.

Com sua vida dedicada aos estudos, ao trabalho e ao voluntariado, Sargento César, entra para a história de Peri-Mirim, como uma pessoa admirável, cuja trajetória merece ser contada e seguida pelas gerações futuras.

O Sargento César, chamado de Irmão César pela Família Santos, participou de todas as edições da Ação de Graças na Jurema, com destaque para os esportes e segurança pública.

 

O Primeiro Carro

Por Ana Creusa

Minha mãe, Maria Amélia, alimentava o sonho de possuir um carro. Em 1998 pediu para eu providenciar a compra de um carro para ela e avisou:

– Quero um carro novo e eu que vou pagar!

Providenciei um consórcio de automóvel, coloquei no nome dela, sem problemas. Quando ela foi contemplada com a Carta de Crédito, falou:

– Quero meu carro de cor vermelha.

Assenti com a cabeça. Saí do trabalho mais cedo e fui buscá-la para irmos à Concessionária Alvema, na Rua das Cajazeiras, para comprar um Fiat Pálio.

Quando cheguei à sua casa, mamãe me disse: não posso ir porque não consegui destrocar o dinheiro da entrada: que estava em moedas de um real.

Procurei saber o valor e ela falou: são R$ 600,00 (seiscentos reais). Você vai ficar com vergonha de levar esse dinheiro assim. Achei o fato até engraçado e disse: – vamos levar assim mesmo, é dinheiro, não é?

Assim saímos com aquela sacola pesada de dinheiro. Chegando à Fiat, fui logo avisando que parte do dinheiro da entrada do carro estava em moedas de um real.

A vendedora Rose levou a sacola para o Caixa e começaram a contar – o gerente Rafael soube da história e veio conhecer a valente senhora que descansava em uma confortável poltrona.

Terminaram de contar o dinheiro: exatos R$ 600,00 (seiscentos reais).

As surpresas não pararam por aí. Quando fomos fazer o financiamento, como mamãe acabara de completar setenta anos, a vendedora falou que ela não poderia mais fazer financiamento em seu nome. Nesse momento, eu retirei os meus documentos da bolsa e os entreguei para a vendedora, para que o financiamento saísse em meu nome.

Mamãe, com ar de decepção, falou:

– Então, já posso morrer, não posso mais colocar nada no meu nome!

Eu entendendo a desolação da minha mãe, falei à vendedora:

– Se não colocar o carro no nome da minha mãe, vamos comprar em outro local.

A vendedora com receio que aquela ameaça se concretizasse, disse:

– Vou falar com o gerente.

Na sua volta disse: – vamos abrir uma exceção! E mamãe assinou o financiamento.

Escolhemos o carro: Pálio Vermelho!

Quando saiu os documentos do carro, ele estava no nome de mamãe, só que a data de nascimento dela estava escrito “12 de novembro de 1938”. Dez anos mais nova! Somente nesse momento ficamos sabendo a “mágica” que foi feita para autorizar o financiamento.

Depois desse primeiro carro, mamãe teve outros carros em seu nome.

… VIOLÊNCIA FANDANGA

Por José Carlos Gonçalves

CENAS DO COTIDIANO XLVII (… violência fandanga)

“O papo reto, das CENAS”, nestes últimos dias, é o deboche da Ilha, nesta greve de trabalhadores no transporte público. Com muito humor e ironia, descobri que “o transporte público” é, na verdade, “cativo de um empresariado” ávido por money. Descobri, também, que São Luís não necessita de vereadores. Ainda mais, dos surdos e dos mudos. Nem dos que não enxergam o povo nas paradas, mendigando uma carona ou um carrinho, com preço desleal, tão exorbitante

e, “numa ‘analisinha’ rasa”, descobri que a Ilha “não precisa de ‘ômbis’, pra viver o carná”. Prova incontestável. Os shows na Beira Mar e na Litorânea, nadando em “um marzão de gente”. Agora, outros quinhentos, é ir ao trabalho. Aí, é impossível chegar sem o tão sucateado, fumacento e odiado “bus”. Brincadeirinha …

e, por falar em busão, na matemática política manter “vouchers”, a que quase ninguém tem acesso, não pode ser mais barato que o subsídio ao choroso empresário

e, sem subsídio, infelizmente, a temática da violência se faz presente. E eu não queria, mas não dá para ignorá-la. E violência, mesmo, é a apelação que nos insulta em nossas casas. Um tal de BBB (Big Boba Bobagem), que já não tem razão de existir. E, muito menos, é recomendável às esfaceladas famílias, tão carentes de bons exemplos e boas práticas. Ainda mais, em horário nobre, que só mostra o que não se pode nem deve fazer. Mas, por pura ironia, é a aspiração de quem busca “fama” instantânea

e instantânea, também, pode ser a queda, no julgamento popular, de quem “escorrega na maionese e na falta de noção”, a viver no fio da fama ou do ostracismo ou do ridículo. Aí, se pode escolher qual o maior vexame. Caráter ambíguo, paradoxal, antitético. Ou, simples e sinceramente duvidoso, em busca do endeusamento ou da crucificação. Aí, vem a condenação, o massacre, a guilhotina, a decretar a vergonha nacional

e, sem vergonha, a violência é tanta que só se dá bem aquele que choca, negativamente, e que se deixa levar pelo ridículo. Aí, a quem está de fora, só resta confirmar que “o elemento anda perdido”. E, como bem diz o caboclo, “remediado, remediado tá”. E “não tem jeito, que dê jeito”. Nem “se vortá pra trás!”

e, “sem vorta”, os nossos jovens vão se embrenhando nesses labirintos “do quanto o menos vale mais” e do “quanto pior, melhor”. Ufa! Cansei …

e, como o caos se instalou, louvável só o comportamento do motorista de Guarulhos, a nos dar uma aula de equilíbrio, ante o desequilíbrio de uma desquilibrada, que achou que tudo podia. E, aí, arrisco a afirmar que é a certeza de que a Maria da Penha lhe dá salvo conduto. Eita, país de absurdos

e, absurdamente absurdo, foi o tenente, empurrando goela abaixo, como teacher, a ensinar os meninos como se grafa “descançar”. Foi, no mínimo, terrível! E, de verdade, necessário é tratar, com responsabilidade, a Educação. Vou empregar “caso contrário”, por não saber “se é senão ou se não”. Vamos lá! Caso contrário, ficaremos presos ao atraso, que já nos massacra no cenário mundial

E, como bobagem pouca é bobagem, não vou prestar “continêcia” a ninguém!

Inté maise!

… AH, BENDITA LINGUÁGI!

Por José Carlos Gonçalves

HISTORIETA DE MEU AGRADO XII (… ah, bendita linguági!)

Como trabalho com a linguagem, há muito tempo, “já diviria tá acustumado cum argumas situaçõis”, que tenho que enfrentar de vez em quando.

Há alguns dias, em uma conversa “com um velho cunhicido”, lhe disse que iria pra casa, porque “tava na hora de imitar morto. Pra quê?!” Fui veementemente repreendido. “Tu quê brincá cum a môrti?!”

A verve de meu interlocutor foi tamanha qui mi abalô. Fiquei sem jeito e demorei um bocado para me recuperar.

E, ainda ressabiado, “li disse qui, cum ‘lucrécia”, eu brinco sem medo. E, “pra quebrar o gelo, fui buscar um chasco”, que nos divertiu muito, em nossa ingenuidade, e lhe perguntei, “só de mal”, ao perceber que não sabia o que é “uma brincadeirinha”. E, sem rodeio, “mandei bala. Tu brinca cum’eo brinco?!”

E o cúmulo do cúmulo era achar, em nossa infância, que essa expressão era uma grande e absurda ofensa, quando, hoje, as TVs, os shows, os cinemas e a internet, descaradamente, sem pudor, nos incentivam “a não só brincar, mas dar brincos, anéis, pulseiras, colares” … e outras coisitas mais, tão escondidas e proibidas de se mencionar, que, até de se falar, causam arrepios.

Mas, voltemos. “Como um baxadêro da gema”, como eu, pode ter medo de algo, se “sempre foi um sujeito forte, casca dura, côro grosso, sem medida”.

Um sofrente com a água distante e salobra. “Com tosse braba, puxamento, papeira, sarampo, ispinhela caída, arca aberta, frieira, bicho no pé, barriga d’água”. E, se não tomasse cuidado, “corria o risco de acordá atarantado, pegá um vento, tê uma congestão, sofrê di andaço i di cobrêro … e mais uma centena e uma ziquiziras”.

Aí, nessa vibe, “querê imitá môrto” é até uma expressão de parcos centavos, “uma simples brincadeirinha, qui si num mata ingorda!

E a “lucrécia’, qui si imbrenhe pô ôtas vereda! Vá brincá cum a curacanga, lá, pras banda do Têso du Fôgo! Cruzincrêdo! Tá ripriindido!”

E, meu santinho Santo Inácio de Loiola, “mi livrai di todo malaméim!”