Por Ana Creusa Martins dos Santos
Como o dia oficial de São José (19 de março) coincide com o auge do período invernoso (as grandes chuvas que alagam completamente os campos), a comunidade de Cametá transfere a festa para o período da seca em setembro, garantindo a mobilidade e o acesso ao povoado.
O Povoado Cametá, situado a apenas cinco quilômetros da sede do município de Peri-Mirim (MA), não é apenas um ponto geográfico na paisagem da Baixada Maranhense. Ele é um testemunho vivo de como a história familiar, a fé e o ecossistema dos campos naturais se entrelaçam para criar um território único de preservação cultural e sustentabilidade.
A história do povoado remonta aos irmãos da Família Santos: Ricardina (Santoca), Cota e Siríaco, antigos proprietários destas terras limitadas ao norte pela Ilha Grande, a leste e sul pela Ponta do Poço, e a oeste pela Carnaúba dos Nunes.
A configuração atual do povoado nasceu do desmembramento e da chegada da Família Martins, por meio de Benvindo Mariano Martins (filho do patriarca João de Deus Martins, do Feijoal) que comprou dois terços do Caméta.
Alguns filhos de Benvindo Mariano Martins foram habitar no Cametá, foram eles: Raimundo João; João de Jesus e Benvindinho. Cada um ocupou o seu quinhão. Mas, o destino e os casamentos cruzados uniram de forma indissociável as linhagens Martins e Santos: os irmãos João de Jesus Martins (Zozoca) e Maria Amélia Martins casaram-se com Maria e José Santos. Esse entrelaçamento transformou as terras e as famílias em um todo comunitário, fundando o que orgulhosamente chamamos de O Cametá dos Martins Santos.
O redesenho geográfico do povoado empurrou a matriarca Ricardina para o fundo da enseada. O local, repleto de vegetação nativa e arbustiva, foi batizado de Sítio Jurema. Foi ali, sob as dores, lutas e a resiliência dos “Guerreiros da Jurema”, que brotou uma das maiores expressões de patrimônio imaterial da comunidade: a Ação de Graças na Jurema, idealizada por José dos Santos.
A maior prova de que a identidade do Cametá é moldada pelo meio ambiente está no altar da sua devoção. O padroeiro da comunidade é São José. Embora o calendário litúrgico oficial da Igreja Católica celebre o Santo em 19 de março, o homem do campo em Cametá aprendeu a ler os sinais dos céus e das águas.
Em março, a Baixada Maranhense enfrenta o auge do seu rigoroso período invernoso, cobrindo as planícies e isolando as estradas sob o pulso das grandes cheias. Por isso, em uma sábia demonstração de adaptação ecológica e social, a comunidade celebra a grande Festa de São José no dia 19 de setembro.
Ao transferir a festividade para o pico do verão, quando os campos secam e os caminhos se abrem, Cametá garante a união de suas famílias e o acolhimento dos visitantes. Essa mudança de data não é apenas uma escolha prática; é patrimônio cultural imaterial nascido do profundo respeito aos ciclos hidrológicos do bioma.
O território do Cametá está inserido em uma Área de Proteção Ambiental (APA) exige que a comunidade atue firmemente como guardiã dos recursos naturais. Diante disso, o futuro sustentável de Cametá apoia-se em dois pilares:
1) A Escola Sá Mendes como Polo de Consciência: A instituição de ensino assume um papel histórico renovado. De espaço de alfabetização das gerações pioneiras, a escola pode despontar como o centro difusor de educação ambiental, preparando os jovens para entenderem o valor ecológico dos campos.
Vale lembrar que Projeto Cantinho da Leitura da Ação de Graças na Jurema inaugurou, juntamente com o corpo docente da escola, uma biblioteca na Escola Sá Mendes, em parceria com a ALCAP e Secretaria de Educação Municipal. O projeto visa incentivar o hábito da leitura e promover o acesso à cultura literária para os estudantes da rede pública de Peri Mirim e
2) O Manejo Tradicional como Escudo Ecológico: a forma como os herdeiros de Ricardina, Benvindo e Santinho manejam o gado, a roça de subsistência e a pesca nos lagos constitui um modelo de desenvolvimento sustentável. Celebrar São José em setembro é também o momento de planejar as ações comunitárias de prevenção contra as queimadas que ameaçam a região na estiagem.
O compromisso das gerações é fundamental para manter os legados de ontem e os desafios ambientais de hoje exigem que a história de Cametá seja transmitida por atos e palavras. Ao unirmos a memória dos patriarcas, a resistência do Sítio Jurema, a fé adaptada de São José e o papel educador da Escola Sá Mendes, manterão o povoado, apesar dos movimentos de êxodo rural.
Preservar os campos naturais de Peri-Mirim não é apenas cuidar da fauna e da flora; é honrar o sangue, o suor, as telhas e os tijolos moldados pelos Martins Santos na construção deste chão sagrado. Bom Festejo a todos!
Outra hora eu conto a história da Escola Sá Mendes que resiste ao tempo!
