Aprenda a Chamar a Polícia

Autor: Luís Fernando Veríssimo

Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente no quintal de casa.

Levantei em silêncio e fiquei acompanhando os leves ruídos que vinham lá de fora, até ver uma silhueta passando pela janela do banheiro.

Como minha casa era muito segura, com grades nas janelas e trancas internas nas portas, não fiquei muito preocupado, mas era claro que eu não ia deixar um ladrão ali, espiando tranquilamente.

Perguntaram-me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa.

Esclareci que não e disseram-me que não havia nenhuma viatura por perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém assim que fosse possível.

Um minuto depois, liguei de novo e disse com a voz calma:

— Oi, eu liguei há pouco porque tinha alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já matei o ladrão com um tiro de escopeta calibre 12, que tenho guardada em casa para estas situações. O tiro fez um estrago danado no cara!

Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um helicóptero, uma unidade do resgate, uma equipe de TV e a turma dos direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo.

Eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de assombrado. Talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do Comandante da Polícia.

No meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e disse:

— Pensei que tivesse dito que tinha matado o ladrão.

Eu respondi:

— Pensei que tivesse dito que não havia ninguém disponível.

Artur Bernardes

Homens e Princípios

Vibra a alma nacional empolgada pela luta partidária de quantas se tem travado neste país. Todas as classes trabalhadoras estão empenhadas nela, com delírio e paixão. O Brasil está, de fato dividido em duas grandes correntes que mais a mais se engrossam e se definem. Ninguém mais poderá conter o choque tremendo das duas opiniões intransigentes que se levantaram robustas uma diante da outra. De um lado é o erro de um regime que há esmagado o sentimento popular, que há abatido as aspirações do povo, que há conservado o país sob as garras do analfabetismo, que desprezado o sertão, e esmagado economicamente as regiões do norte, que há descurado dos empreendimentos administrativos que fariam a felicidade geral das populações atrasadas, doentes, sujeitas a tyrannêtes locais, vândalos da civilização e do progresso, que aniquilam a terra e atrofiam a energia do homem.

Doutro lado estão, incontestavelmente os princípios são os postulados da verdadeira democracia, o respeito à soberania popular, os grandes ideais, os ideais fulgurados que querem a república pela república, os ideais sublimes que levantam a moral do homem, os ideais nobre que querem o homem na posse dos direitos civis, civicamente educado para meter ombros aos elevados cometi-me enérgica, da pátria brasileira; os ideais gloriosos que querem o Brasil politicamente, uma coletividade forte, nova, ativa e trabalhadora; sem explorados, nem exploradores; sem grandes, nem pequenos; construída de elementos que gozem de todas as vantagens que as instituições conferem a todos, uma coletividade enérgica, produtiva, capaz e emancipada.

De outro lado estão os princípios nocivos, pelos quais os homens valem mais que a lei, e os interesses particulares estão mais altos que as necessidades do povo. Doutro lado estão os que se curvam diante da lei, e não de homens, os para quem as necessidades do povo pesam mais na balança dos fatos que os interesses particulares.

Não se discutem, neste pleito fundamental, merecimentos de individualidades, mais uma vez o dizemos; que são por demais conhecidos, os que ora se apresentam candidatos à presidência e vice-presidência da República. Não se discutem nesta hora merecimentos, pois de ambos os lados há inteligências brilhantes, competências fora de qualquer dúvida. O que nesta hora se examinam são os princípios que essas correntes políticas defendem; são os objetivos políticos que elas colimam; são as razões em que se estribam os seus incorporadores; são os direitos que elas amparam.  É a orientação econômica do país o que se examina, neste momento. O povo vilipendiado por tantos erros, por tantas ambições, por tantas emergências difíceis, agora que se vai mais uma vez decidir dos seus destinos, o que analisa, é a sinceridade da palavra dos combatentes; o que ele sonda, meticulosamente, são os fatos erguidos pelos que sustentam a controvérsia; o que ele perscrute, é esse mundo interior da cobiça escondida, que, silenciosa, arma o salto para mais uma vez o dilacerar. O povo enveredou pelo bom caminho. Ele não quer saber senão do alto valor político e moral dos que propõem a dirigi-lo, valor atestado pelo passado, em serviços prestados à causa republicana.

Insiste o povo em descortinar largos horizontes da democracia prestigiando aqueles candidatos que por obras e palavras já se revelaram amigos das classes trabalhadoras, aqueles a quem se comunicam seus sentimentos, aqueles que sofrem com ele as suas necessidades, e que se mostram capazes pela emancipação moral de lhe proporcional algum conforto de que precisam tanto e que não chega nunca!

A ocasião não é, pois, para esmorecimentos!  Urge que todos cumpram o seu dever! Urge que se afastem todos os óbices capazes de impedir à livre manifestação da consciência eleitoral! É necessário que o eleitorado brasileiro conheça bem a responsabilidade de seu gesto, para que amanhã, por causa desse indiferentismo já tão proverbial de nossa gente não se tenha a lamentar um desastre administrativo fatalmente nefasto e irremediável.

Editorial do Jornal “Diário de S. Luiz”, publicado em 2 de fevereiro de 1922 (quinta-feira). O artigo se refere à eleição presidencial que ocorreria nesse anos. No Dia 1.º de março de 1922 ocorreu a eleição de Artur Bernardes que governou de 1922

O tronco caído

Rito de passagem dos índios Cherokees:

O pai leva o filho para a floresta durante o final da tarde, venda-lhe os olhos e deixa-o sozinho.
O filho se senta sozinho no topo de uma montanha toda a noite e não pode remover a venda até os raios do sol brilharem no dia seguinte.
Ele não pode gritar por socorro para ninguém.
Se ele passar a noite toda lá, será considerado um homem.
Ele não pode contar a experiência aos outros meninos porque cada um deve tornar-se homem do seu próprio modo, enfrentando o medo do desconhecido.
O menino está naturalmente amedrontado.
Ele pode ouvir toda espécie de barulho.
Os animais selvagens podem, naturalmente, estar ao redor dele.
Talvez alguns humanos possam feri-lo.
Os insetos e cobras podem vir picá-lo.
Ele pode estar com frio, fome e sede.
O vento sopra a grama e a terra sacode os tocos, mas ele se senta estoicamente, nunca removendo a venda.
Segundo os Cherokees, este é o único modo dele se tornar um homem.
Finalmente…
Após a noite horrível, o sol aparece e a venda é removida.
Ele então descobre seu pai sentado na montanha perto dele.
Ele estava a noite inteira protegendo seu filho do perigo.