COISAS E LOAS X: SEM RESPEITO, NÃO HÁ RESPEITO

Por Zé Carlos

“Vive-se” um momento, em que se perderam as boas referências no tocante às pessoas de “estatura”, única. Pessoal, social e moralmente. Referências, que deixaram seus nomes e feitos “tatuados” na memória de nossa gente. E nossa cidade foi pródiga em tantas. Enumerá-las é impossível.

Trago dois nomes, que se destacaram e se confundem com a nossa história, em um tempo não muito distante, em que “valente não se criava”. Duas histórias, de vida, fantásticas, que respeitavam e se faziam respeitar. E como se faziam respeitar!

Reza nos anais pinheirenses que Totó Sá veio estabelecer-se na Princesa da Baixada. Só que antes, em um festejo, ainda em sua residência, em Pericumãzinho de Baixo, povoado de Peri-Mirim, apareceu um “desmancha-prazeres”. Como era costume, na época, ia ser colocado para fora do salão. Essa penalidade era terrível. Ao ‘indivíduo” proibia-se tudo. Dançar, divertir-se. E o pior. Estava-lhe decretada “a lei do bico seco”. Nenhuma alma caridosa podia dar ou vender-lhe bebida alguma. Uma verdadeira lástima. Imagina perder o “festejo” tão esperado por um ano. Era demais. Era o fim do mundo. Diante dessa dura realidade, o “meliante” “deu uma de brabo”, buscando a intimidação do dono da festa. Plano, que não deu certo.

A casa tinha um corredor estreito, e comprido “pra dédeu”. Formou-se uma espécie de fila. Todos queriam assistir ao desfecho do “sururu”. O cabra exaltou-se. Fez-se valente. Embrabou-se. Desacatou. Xingou. Esperneou. Totó Sá perdeu a “pouca” paciência, que lhe restava, aplicando-lhe um “bogue de respeito”. Este lhe saiu com tanta violência e força que se propagou pela pretensa fila. Segundo “as boas línguas”, o seu neto Antônio Sá, nosso conhecido Toureiro, pai de nosso amigo-irmão Inácio Henrique Checheca, conferiu os caídos. 111.111 caídos, sim, senhor. Não sei por que 111, mas foi 111.

Para infelicidade do “brabão”, o último, que caiu, quebrou a perna da mãe de Totó Sá, que se encontrava na porta do quintal, sentada no chão, preparando, num alguidar, o vinhadalho para o leitão, a ser assado. Aí, sim, a sova tornou-se homérica. Haja bogues!

De outra feita, o meu avô Antônio do Rosário, ao ser convidado, levou a minha avó, ainda no começo do relacionamento dos dois, a uma festa, em um dos nossos povoados. No auge do baile, eis que surgiu “um engraçado”, achando-se o dono do lugar, a se engraçar por minha avó. Que situação mais desagradável! E complicada! Passava e dizia:
– Cabôco da Ponta da Capoeira aqui não cisca terreiro. Cabôco da Ponta da Capoeira aqui não cisca terreiro.

Que ousadia! Que desaforo! A raiva foi crescente. E, com um bem aplicado “pescoção”, Geraldo perdeu-se no ar e perdeu a noção de mundo. O certo é que Geraldo do Cuba foi a nocaute. O meu avô voltou para sua rotina de trabalho e trabalho. Alguns dias depois, chegou à Ponta da Capoeira um “portador”, a lhe dizer que Geraldo do Cuba mandava-lhe um recado, que dizia simplesmente:
– Onde nóis se encontrá, não nasce capim.
O “recadista” recebeu logo o seu “benefício”. Umas boas lapadas de corda de couro. E foi despachado com a resposta certeira:
– Diz pra ele que, quando dei nele, não tava com raiva.
Recado dado, recado recebido. A valentia de Geraldo evaporou-se. Escafedeu-se rumo ao arco-íris. E, quando Geraldo encontrou o meu avô, saiu-se com esta:
– Meu amigo … Ah, como queria ti dá um abraço!
Haja respeito!

VIAÇÃO AÉREA JAÇANÃ

Por Gracilene Pinto

– Conta uma de caçada, Joca! – pediu o sobrinho Manuel.
E Joca contou:
“Como grande parte dos habitantes da Baixada Maranhense, Miguel vivia de uma lavourinha de subsistência e do aproveitamento de alguns produtos que a natureza punha à disposição de todos.

Apesar da degradação que os homens há séculos vêm ocasionando ao meio ambiente, em alguns lugares por ali ainda existia fartura de caça, pesca e frutos da terra, como o cará, a taioba, o palmito, o babaçu, e muitos outros frutos silvestres.

Miguel gostava de caçar aves, que em certas épocas do ano se espalhavam pelos campos alagados da baixada, como jaçanãs, japessocas, carões, marrecas, etc. E, como bom caçador, adorava contar suas façanhas aos amigos durante os serões na porta do seu casebre.

Mas, como se sabe, quem conta um conto aumenta um ponto, e é lendária a capacidade que tem os caçadores e pescadores em aumentar sempre muitos pontos. Ninguém pode negar também que o Miguel tinha um prazer peculiar nos exageros.

Uma noite, nosso herói contou, com riqueza de detalhes, sobre uma caçada às jaçanãs que ficou na história e da qual fora o personagem principal.

Ocorreu que, pretendendo caçar as aves vivas, Miguel havia amarrado uma corda grossa na própria cintura, onde atara também muitas cordinhas finas com pequenos laços nas pontas. Chegando à beira do Tanque Velho, logo avistou um bando de jaçanãs pousadas sobre as folhagens hidrófilas que cobriam praticamente todo o campo. Usando um cano de junco como respiradouro, o nosso caçador deslizou por baixo d´agua até o local onde pousavam as pernaltas. Então, muito delicadamente, foi laçando as perninhas das aves sem que as mesmas percebessem o que acontecia. Finalmente, quando já havia laçado todas as jaçanãs, Miguel levantou-se de supetão acima do nível da água, assustando as avezinhas que voaram levando-o pendurado pelas cordinhas.

A princípio o caboclo ficou muito assustado.

Apelou pra Deus, pra Nossa Senhora, pra São Vicente de Férrer e todos os santos seus conhecidos. Mas, aos poucos foi se acalmando, se acostumando com a situação, e começou a gostar da experiência de estar voando.

Voar era mesmo uma beleza, siô!
Ainda mais assim, sentindo o vento no rosto e sem o barulhão que faziam os Teco-teco quando voavam baixo sobre a cidade.

E as jaçanãs voavam alto, bem alto, cada vez mais alto. E longe, cada vez mais longe, foram levando sua carga sobre os verdes campos alagados da Baixada e sua luxuriante vegetação de juncos, pajés, aguapés, e as espécies arborescentes próprias dos campos inundáveis.
Sobrevoaram rios, ilhas, todo arquipélago e, até mesmo, o Golfão Maranhense com o Porto do Itaqui e seus imensos navios.

À essa altura Miguel já aprendera a controlar as jaçanãs. E puxando daqui, puxando dali. Ora nas cordinhas da direita, ora nas cordinhas da esquerda. Foi mudando a direção das avoantes de volta para a Baixada até avistar a torre da secular igrejinha barroca da sua querida São Vicente Férrer, quando, então puxou do canivetinho que trazia no bolso da calça e começou a cortar as cordinhas. Uma de cada vez. Até restar somente as duas últimas cordinhas, que foram cortadas sobre o terreiro de sua casa, permitindo-lhe realizar o pouso com total segurança.

Finalmente estava em casa, são e salvo!
E, ao pisar no chão de sua terra natal, o homem respirou fundo e pensou:
– Uma aventura tão fantástica e nem posso contar pra ninguém. Quem é que vai acreditar que estive hoje em São Luís e ainda por cima pilotando a Viação Jaçanã?

(Texto de Gracilene Pinto no livro ESTÓRIAS DO VELHO JOCA – Imagem da Inernet). Com Chico Pinheiro, Custodio Roque Tavares e Eliana Castela.