A MINHA RUA

Por Zé Carlos

Há muitas ruas. “Muitos donos”. Muitas histórias. Entretanto, não há rua igual a minha.
Não digo a rua, pavimentada e super povoada, de hoje. Não. A minha rua “só areia”, recheada de terrenos baldios, com vizinhos de verdade: “seu” Joca Morais, Oneildo e Maria Joana, dona Ana Sousa, Evaristo, Arias e Socorro Marinho, meus avós Antônio do Rosário e Dedé, “seu” Nemésio e dona Filomena, “titío” Júlio e tia Bela, dona Adelaide e dona Maria Helena.

Nela, podia correr livre e seguro. Andar de bicicleta. Jogar bola, pião, dama, dominó, “peteca” (hoje, bola de gude; o que me causa uma certa decepção), “sopapo” (vim a saber que é a verdadeira peteca), “chucho”, amarelinha (nome mais sem graça, para quem queria apenas chegar “no” céu!). Pular elástico, e o que mais a imaginação pudesse idear.

Eu só não podia empinar pipa (papai era funcionário da CEMAR). Que inveja dos amigos. Mas, há três anos, fui à praia, com meu filho, e passamos o dia “todinho” soltando pipa. “Matei a vontade”. Não sei quem estava mais feliz.

No entanto, a magia da minha rua acontecia à noite. Tanto que, à tardinha, tudo era feito “às carreiras”. O encontro com os amigos tornava-se reunião-família! Dali saía o “bom barquinho”, repleto de “peraltinhas”, num serpentear “maroto”, navegando a mesma canção, nunca “enjoada” nem descartável, em busca do primeiro ou último porto seguro.

Também, o coqueiro inalcançável, testemunha única do choro mais puro e sincero da viúva tão jovem em busca de um novo bem querer. E o “boca de forno”, mandão e tirânico, a distribuir o “bolo”, num castigo gostoso, e sendo obedecido com os mais inocentes sorrisos. E o “já ou?!”, que ficou perdido no leito da rua, soterrado pelo devastador progresso. Duvido que alguém ainda se lembre do “já ou?!”. E o queimado? E o roubar bandeira (…)?!
Depois, “era uma luta pra banhar!”

Na minha rua, até São João vinha brincar os seus folguedos, montado nas costas do boi de Donzinho; e São Pedro chegava sereno a abençoar “compradios”, e batismos no “fogo” da amizade.

Essa era a minha rua. Onde as poucas intrigas, por meras banalidades (uma inocente cuspida ou um pisão no retrato da madrinha, rabiscado no chão), duravam tanto … até uma nova brincadeira!

A minha rua quase foi o meu sepulcro. Num impulso de herói, quis atravessá-la primeiro que a caçamba da prefeitura, levando Chaguinha, de Chico de Anália, o motorista, literalmente a “água de açúcar”. Tal presepada foi coroada com umas bem aplicadas chineladas “no lombo”. A primeira e única vez que vovó “relou a mão” em mim. E, ainda, foram poucas. Saí no lucro. Estou vivo. Mereci mais.

Quantas aventuras no palco da minha rua, onde ocorreram os mais diversos espetáculos!
No entanto, o verdadeiro, o legítimo espetáculo só acontecia após o apito da usina. “Desfazia-se” a luz. Enfim, o céu em sua plenitude. Era a hora de me apossar das estrelas. Eu tinha um “rebanho” considerável delas, que já não vislumbro mais. Não pela “gaiatice” da luz elétrica, mas pelos olhos tão encharcados, que me tomam agora.
Tomemos nossas ruas!

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