Peri-Mirim: Reunião da Coordenação do Território Quilombola Pericumã

Relatório da reunião da Coordenação do Território Quilombola Pericumã realizada no dia 03/10/2021 no Colégio Vitorino Freire na Tijuca.

O Território Pericumã é formado por 9 (nove) comunidades quilombolas (Pericumã, Murutim, Tijuca, Malhada dos Pretos, Santa Cruz, Capoeira Grande, Rio da Prata, Pedrinhas e Itaquipe).

Como foi a primeira reunião da coordenação, foi feito um levantamento da situação de cada comunidade:

1 – Pericumã – o senhor Simeão Gonçalves, último presidente da associação se fez presente junto com a senhora Lenir. Em seu relato ele nos informou que fazem dois anos que o mandato da diretoria acabou. Assumiu o compromisso de encaminhar o mais rápido possível a eleição de uma nova diretoria. Para isso, vai contar com a ajuda do representante da associação junto à coordenação Sandro da Cantanhede;

2 – Tijuca – segundo o relato do senhor Walter, presidente atual da associação e representante da comunidade junto à coordenação, a associação encontra-se com a documentação atualizada. A Diretoria está dentro do mandato;

3 – Itaquipe – o senhor Zé Domingos é o atual presidente e representante da associação junto à coordenação. Esta eleito há um ano. Mas falta registrar a Ata de eleição no Cartório. O que não foi feito ainda porque o cartório está exigindo que conste na ata o nome do vice-presidente na chapa. Só que pelo Estatuto da associação esse cargo não existe;

4 – Capieira Grande – a senhora Ana Rosa é a atual presidente e representante junto à coordenação. Esta eleita mas falta registrar a Ata da eleição. Já fez um levantamento completo dos débitos da associação e já está com uma proposta de parcelamento;

5 – Pedrinhas – a senhora Joquinha junto com a senhora Nubia informaram que a associação está com problemas porque a presidente eleita está com uma carga de trabalho particular muito grande o que está dificultando sua atuação junto à associação. A comunidade ainda não recebeu o certificado de comunidade quilombola . Estão aguardando;

6 – Malhada dos Pretos – o senhor Berel foi reeleito presidente e é representante da associação junto à coordenação. Esta faltando registrar a ata da eleição;

7 – Rio da Prata – o senhor Lelico que é representante da comunidade junto à coordenação é o atual presidente. Informou-nos que a comunidade enfrenta problemas com três fazendas que existem dentro da área da comunidade. A documentação da associação está em dia;

8 – Murutim – o senhor Grande é o atual presidente e representante da comunidade junto à coordenação. Está eleito há um ano. Falta registrar a ata da eleição. A comunidade ainda não tem o certificado de comunidade quilombola mas o processo já está na Fundação Palmares e

9 – Santa Cruz – o senhor João Batista é o atual presidente está eleito há um ano e a documentação da associação está em dia. Está faltando indicar os representantes junto à coordenação.

Todo esse levantamento foi necessário porque sabemos que para conseguir qualquer benefício para as comunidades é obrigatório a atualização jurídica das associações. Senão nada feito. Foi comunicado que o I campeonato das comunidades quilombolas do Território Pericumã terá o seu início no dia 03/10/2021 à tarde.

Neste primeiro ano, todos os jogos serão realizados no campo do Murutim. O campeonato está sendo organizado pelo senhor Júnior Pote e pelo senhor Lageado e conta com o apoio do Prefeito Heliezer Soares, do secretário de Cultura Frank Hudson e do vereador Joubert.

Iniciamos uma discussão sobre a Semana da Consciência Negra que tem o dia 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra em homenagem ao líder negro Zumbi dos Palmares que foi morto nesse dia no ano de 1695. Como a hora já estava avançada decidimos que a assessoria da coordenação vai elaborar uma proposta de programação que será apresentada em uma próxima reunião que será realizada no dia 06/11/21 no mesmo local.

A Assessoria é formada por Maninho Braga, Ana de Margarida, Zé Augusto e o Dr. Sinval. Para fins de registro e acompanhamento, lavrou-se o presente Relatório.

 

Academia Joanina, um marco na História do município

Por  Marcondes Serra Ribeiro*

Confesso que me encontro deveras ansioso pela chegada do dia 29, quando será criada nossa Academia Joanina de Letras, Ciências e Saberes Culturais. É um sonho que se vai transformando em realidade, sonhado juntamente com outros sonhadores (desculpem-me a tautologia premente) – aquele desejo que se firmou permanentemente em cada um de nós, vivo e constante. Um sonho coletivo, e por isso mesmo bem mais forte, que nos une e motiva-nos para seguir em frente, otimistas, esperançosamente alegres, carregando uma certeza de que estamos construindo um marco em nossas vidas, na história de São João Batista!

Estamos bem otimistas, tentando disciplinar a empolgação, vislumbrando tudo pelo lado bom, concebendo a academia como um lugar de convivência real, amigável e elegantemente pacífica. Um ambiente ameno, onde nos dedicaremos esforçadamente ao usufruto daquilo que nos beneficiará e engrandecerá nossa alma, em forma de projetos contemplativos do crescimento de nossa terra, nas áreas afinadas com os propósitos institucionais – culturais e artísticos – que sejam dignos construtores, mantenedores, resgatadores da memória joanina. Somos conscientes que nossos propósitos não diferem das outras academias, quanto ao aspecto teórico, mas certamente que nosso ânimo fará a diferença no aspecto atitudinal , pois, graças a Deus, compomos um grupo com grandes expoentes, reunidos provavelmente pela saudade dos tempos de mais dedicação, gentileza e delicado amor ao próximo, apego à nossa eclética cultura, com o especial ufanismo que sempre caracterizou a ligação dos bons joaninos à sua querida terra – um sentimento que se mostra em semblante alegre e sincero, funda-se em argumentos extremamente firmes, expressa-se em termos de claro entendimento, pois provém da decisão vocacional em dar mais significância a nossas vidas, transforma-nos em plantadores das sementes dos sonhos mais prósperas , em solo abençoadamente fértil.

Não nos foge a certeza de que precisaremos ser fortes e corajosos para os embates contra as adversidades. Aqueles que se dedicam às artes, à cultura, tantas vezes são confundidos como articuladores apenas de projeção pessoal, mas isto, para nós, é mera consequência daquilo que é bem feito e torna-se agradavelmente digno de sucesso, por isso é que somos dedicados detalhistas, caprichosos artesãos de cada obra. Sabemos que remaremos contra a maré, enfrentaremos desafios terríveis e de toda ordem, mas bem determinados e decididos, seguiremos em frente, como temos seguido até aqui.

Não apenas homenagearemos, reconheceremos nossos valores, nossos expoentes artísticos, profissionais das mais variadas performances, mas também nos lançaremos às pesquisas que nos possibilitem o resgate de uma legião de esquecidos do passado e também do presente, pois muitos valores joaninos estão por aí, espalhados por esse imenso Brasil, desconhecidos de nossa gente, mas expressivos cidadãos de outras plagas, – personagens encantados pelo fenômeno da alma artística, pela dedicação e responsabilidade profissional concedente de grandes conquistas. Sentimo-nos, portanto, com a distinta obrigação de coloca-los em evidência, trazê-los zelosamente ao conhecimento e reconhecimento e proximidade de nossa gente, laureá-los condignamente!

Não poderia deixar de exaltar o especial apreço pela Língua Portuguesa, uma das inspiradoras razões que principiaram e justificam a existência da academia. Muitos de nós são poetas, escritores que se esmeram no trato com as palavras e deliciam-nos com obras requintadamente maviosas. A última flor do lácio inculta e bela, como referenciou Olavo Bilac, é o universo no qual esses confrades e confreiras movem a inspiração e pela qual se integram à comunidade lusófona, constituída de milhões de pessoas espalhadas pelos diferentes continentes, comunicando-se em português , cada povo a seu modo. Vale-nos lembrar o magistral Fernando Pessoa e seu dito: “a minha pátria é a língua portuguesa” e nós estaremos certamente muito inspirados por ele e assim cultuaremos a literatura e os livros e as produções literárias entre nossos conterrâneos.

Amigos, nossa academia está sendo criada com o orgulhoso referencial “a casa de Fran Figueiredo”. Ele foi escolhido para ser patrono da instituição, mas será também a casa de todos os demais patronos, a casa de todos os acadêmicos, mas, acima de tudo será uma realização que orgulhará nossa terra, firmar-se-á como o ambiente do diálogo entre a tradição e a contemporaneidade que esperançosamente dará bons resultados!

Marcondes Serra Ribeiro é natural de São João Batista, Graduação Superior em Língua Portuguesa e Literaturas na instituição de ensino CESB, Trabalhou como Professor de Língua Portuguesa na empresa Área de educação, Trabalhou como Management na empresa Ministério da Saúde.

OS PESSOA (O “FIO” MUSICAL)

Por Zé Carlos

Atendendo a uma sugestão especialíssima, volto a saga da música pinheirense, temática já abordada em ROSÁRIO & PESSOA: a harmonia perfeita.

Tarefa extremamente agradável, que me levou, um “pouquinho” mais, às minhas RAÍZES, onde pude reafirmar a importância dos PESSOA, para a vida musical de nossa Princesa da Baixada.

Nesse cenário, vamos encontrar, do segundo para o terceiro quartel do século XX, Filipinho Pessoa, que comandou algumas formações musicais, a animar os galantes bailes e a invadir a noite com suas famosas e sensacionais serenatas. Então, o que dizer dos carnavais! Carnavais homéricos, a “endoidecer” a cidade. Lembranças carnavalesca, que despertaram em um saudosista ferrenho, o meu pai Zé Carrinho Pessoa, até o ensaio de uma das músicas da época. “Seu Mané Garrincha, como é que se faz gol / Seu Mané Garrincha, como é que se faz gol / Seu Mané Garrincha, pega a bola e dribla um, dois, três, quatro, cinco, seis / E depois dá de bandeja, pra marcar / Quem faz o gol? É o Pelé”. Eita, lembranças!

Voltemos a Filipinho Pessoa. Um músico pleno, que lia e escrevia partituras, para todos os instrumentos. Verdadeiramente, um mestre, que teve a felicidade de ver-lhe os filhos “trilhando a sua mesma trilha”. Músicos. E que músicos! Fernando, Zé, Raimundo, Inácio, João, Heiter, Isabel (tia Bela, arrasando no violão). A exceção masculina fica por conta de tio Antônio Pessoa, que tocava nenhum instrumento.

Nesse “mergulho” musical, encontrei, como primeira referência, uma “orquestra”, liderada por ele (Filipinho Pessoa), no trombone, junto com Luís de Iria e irmãos. Luís de Iria, no violino; um irmão, que infelizmente não consigo nomear, na bateria; e o outro irmão, , no piston.

Há de se ressalvar que provavelmente houve outras incursões nessa seara. Não consegui outras informações. Assim como aproveitar para já me desculpar se, por ventura, esqueci alguém. Espero que venham contribuições, que possam completar minhas informações e / ou elucidar algumas lacunas apresentadas aqui. A curiosidade, pois, que me consome agora, é saber quem o levou à tamanha maestria.

O certo é que desfeita a formação citada, vovô Filipinho, ainda no trombone, partiu para nova empreitada. Criou a banda Jazz Pinheirense, referência musical a toda a Baixada e influência às gerações seguintes. “Bandaço“, em que contava com a companhia de Bigodinho, no pandeiro; Fernando Pessoa, no banjo; Guadêncio Peocapá, no violino; Heiter Pessoa, na bateria; e José Tomé, no piston. Haja talentos!

Filipinho Pessoa tinha apenas um irmão, Mundico Pessoa. Este não tocava, mas a genética musical fez-se presente em seus descendentes: Geovane Pessoa, no sax, e Álvaro, o genial Caeira, “mestríssimo”, no pandeiro.

Para não ser injusto, necessário se faz ressaltar que nossa querida cidade “acalentou” outros monstros sagrados e respeitados, com quem meu avô conviveu, ora trocando conhecimentos, ora dividindo o palco, como o senhor Hernane Leite, professor de música; a família Soares, composta pelos irmãos Parmenas (saxofone), Arlindo (piston), e Lourenço (não consegui saber o instrumento); mestre Valeriano (violino); Zé Derinho (bateria); Belírio (bateria); Zé de Cristina (cabaça e pandeiro); os meus tios Hamilton, morador da Enseada (banjo) e Benedito do Rosário (saxofone); Zé Chagas (saxofone); Chiquinho Oliveira (saxofone); e os irmãos de Queimadas, liderados por Mundoca, com o seu piston, a assombrar e embalar os pés-de-valsa em nossas festas.

Diante dessa plêiade, pode-se entender o caminho musical, que Pinheiro trilhou. Pena que se perdeu “o fio da meada”. O “fio” musical!

Nota: O Fernando Pessoa da foto é bisneto de Filipinho Pessoa.

COISAS E LOAS XIV – ESPLÊNDIDO REMÉDIO

Por Zé Carlos

Fico imaginando como se comportaria uma criança, da cidade, se voltasse no tempo, para o período de nossa infância. Certamente, tomaria um choque tamanho que, no mínimo, “entraria em parafuso”. Ficaria sem chão. Ou, no baixadês, “estaria sem eira nem beira”.

Acredite. O desespero seria estupidamente grande. Sem Miojo, sem Nutella, sem “iorgute”, sem sorvete, sem chocolate, sem cachorro-quente, sem hambúrguer, sem batata frita, sem Sucrilhos, sem e sem “besteiras”.

Imagino a cara de incredulidade ao se deparar com um “chibé”, também conhecido, Baixada adentro, como carneira, jacuba, pandu ou tiquara. Eita, lembrança! Ainda tenho um cheiro verde na geladeira. Estou mal intencionado.

Mas, voltando ao nosso papo, tal criança inexoravelmente estaria condenada ao jejum. Ou vocês acreditam que partiria para um prato de angu com isca; ou para uma jabiraca esturricada, buscando eliminar as espinhas; ou um café com farinha, “em riba” das três horas da tarde, quando o sol escaldante põe-nos à prova, para confirmar, ou não, a nossa “baixadeirice”; ou para um beiju, no formato de um abano, recheado com amêndoas de côco babaçu?! Ah, beiju! Bendita casa de forno!

As respostas ficarão a critério de cada um, que teve o privilégio de se lambuzar com mangas, bananas, araticuns, tuturubás, mamãos, “camapus”, marias pretinhas, ingás, quiriris, atas, bacuris, laranjas, muricis, anajás, melancias, ananás, cauaçus, jacas, goiabas, tucuns, abricós, sapotis … Frutas. Frutas de verdade. Frutas, que trazemos impregnadas em “nossos sabores e aromas”.

Como poderia ser normal e agradável, chamar o Zé para um LUNCH?! Que bicho seria esse? Em grego ou etrusco?! Nada feito. Agora, que sonoridade perfeita: “MEE-REEN-DAA!” Aí, sim, é o bicho. Até o bicho da goiaba “entrava”. Certamente, por isso, até hoje olho atravessado para um tal de kiwi.

E, nessa perspectiva, a verdadeira comida também seria rejeitada. Peixe, boi, carneiro, bode, pato. Sem falar nas arapucas, o que “não está politicamente correto”; embora “o politicamente incorreto” esteja a se entranhar em todas as esferas sociais. Arrop! Acrescentemos galinha e frango. Galinha e franco, sim. Já vi criança, que na tentativa de ser convencida a comer, sair-se com esta. Não gosto de galinha. Quero é frango. Se for dito que é frango, diz que gosta é de galinha. Haja perspicácia! Haja paciência, de quem cuida!

Agora, o que aconteceria se a criança, da cidade, geralmente frágil, fosse submetida a um tratamento inventado por um amigo de meu pai (do bairro “da Matriz”), ao descobrir que estava hipertenso e acometido de uma sudorese absurda?! Com certeza, “iria à cova”.

Ele, após ser questionado “como estava”, afirmou que já se encontrava melhor, desde que encontrou o meio para acabar com sua doença. Literalmente, palavras dele. “Resolvi armoçá, tod’dia, um cuzidão de carne de bufa, da maçã do peito, e jantá doi’tutano, batido com farinh’seca. Sant’remédio! Já tô ôto. Mi sintino curado”.

Eita, remédio esplêndido! Estou pensando seriamente em me auto medicar!

COISAS E LOAS X: SEM RESPEITO, NÃO HÁ RESPEITO

Por Zé Carlos

“Vive-se” um momento, em que se perderam as boas referências no tocante às pessoas de “estatura”, única. Pessoal, social e moralmente. Referências, que deixaram seus nomes e feitos “tatuados” na memória de nossa gente. E nossa cidade foi pródiga em tantas. Enumerá-las é impossível.

Trago dois nomes, que se destacaram e se confundem com a nossa história, em um tempo não muito distante, em que “valente não se criava”. Duas histórias, de vida, fantásticas, que respeitavam e se faziam respeitar. E como se faziam respeitar!

Reza nos anais pinheirenses que Totó Sá veio estabelecer-se na Princesa da Baixada. Só que antes, em um festejo, ainda em sua residência, em Pericumãzinho de Baixo, povoado de Peri-Mirim, apareceu um “desmancha-prazeres”. Como era costume, na época, ia ser colocado para fora do salão. Essa penalidade era terrível. Ao ‘indivíduo” proibia-se tudo. Dançar, divertir-se. E o pior. Estava-lhe decretada “a lei do bico seco”. Nenhuma alma caridosa podia dar ou vender-lhe bebida alguma. Uma verdadeira lástima. Imagina perder o “festejo” tão esperado por um ano. Era demais. Era o fim do mundo. Diante dessa dura realidade, o “meliante” “deu uma de brabo”, buscando a intimidação do dono da festa. Plano, que não deu certo.

A casa tinha um corredor estreito, e comprido “pra dédeu”. Formou-se uma espécie de fila. Todos queriam assistir ao desfecho do “sururu”. O cabra exaltou-se. Fez-se valente. Embrabou-se. Desacatou. Xingou. Esperneou. Totó Sá perdeu a “pouca” paciência, que lhe restava, aplicando-lhe um “bogue de respeito”. Este lhe saiu com tanta violência e força que se propagou pela pretensa fila. Segundo “as boas línguas”, o seu neto Antônio Sá, nosso conhecido Toureiro, pai de nosso amigo-irmão Inácio Henrique Checheca, conferiu os caídos. 111.111 caídos, sim, senhor. Não sei por que 111, mas foi 111.

Para infelicidade do “brabão”, o último, que caiu, quebrou a perna da mãe de Totó Sá, que se encontrava na porta do quintal, sentada no chão, preparando, num alguidar, o vinhadalho para o leitão, a ser assado. Aí, sim, a sova tornou-se homérica. Haja bogues!

De outra feita, o meu avô Antônio do Rosário, ao ser convidado, levou a minha avó, ainda no começo do relacionamento dos dois, a uma festa, em um dos nossos povoados. No auge do baile, eis que surgiu “um engraçado”, achando-se o dono do lugar, a se engraçar por minha avó. Que situação mais desagradável! E complicada! Passava e dizia:
– Cabôco da Ponta da Capoeira aqui não cisca terreiro. Cabôco da Ponta da Capoeira aqui não cisca terreiro.

Que ousadia! Que desaforo! A raiva foi crescente. E, com um bem aplicado “pescoção”, Geraldo perdeu-se no ar e perdeu a noção de mundo. O certo é que Geraldo do Cuba foi a nocaute. O meu avô voltou para sua rotina de trabalho e trabalho. Alguns dias depois, chegou à Ponta da Capoeira um “portador”, a lhe dizer que Geraldo do Cuba mandava-lhe um recado, que dizia simplesmente:
– Onde nóis se encontrá, não nasce capim.
O “recadista” recebeu logo o seu “benefício”. Umas boas lapadas de corda de couro. E foi despachado com a resposta certeira:
– Diz pra ele que, quando dei nele, não tava com raiva.
Recado dado, recado recebido. A valentia de Geraldo evaporou-se. Escafedeu-se rumo ao arco-íris. E, quando Geraldo encontrou o meu avô, saiu-se com esta:
– Meu amigo … Ah, como queria ti dá um abraço!
Haja respeito!

EITA, VONTADE!

Por Zé Carlos

A saudade, para não fugir ao costume, toma-me nesta madrugada com uma vontade mansa e deliciosa. Até já sinto as cócegas da rede, insone e cansada de me carregar, a expulsar-me, “para fora”, a fim de buscar a aurora iminente e necessária.
Até já sinto a quietude, da rua e dos quintais, começar a agitar-se, ao testemunhar a escuridão, há muito cansada, precisar fugir para não ser devorada pelo dia inclemente.
Até já sinto o cheiro e a umidade do orvalho, a encharcar o capim de marreca, que veludamente molha-me os pés, ainda “dormintes” e preguiçosos, a se arrastarem no “passarinhar” vacas, rumo à ordenha.
Até já me sinto no curral de Antônio de Eliza, a tirar e sorver o bendito leite mugido, devorado com avidez, numa cuia faminta de mim, a reclamar um punhado de farinha d’água e uma nesga de carne frita.
Até já sinto o olhar compugido do gado, a sair molemente, pedinte e choroso, ao ser batido “pau de porteira”, na certeza certa de um pastar abundante e tranquilo.
Até já sinto a impaciência do “alazão”, “doidinho pra vadiá” e sair campo a fora, a desfilar em tapete mágico e único; sorver a brisa bendita, carregada de tanta vitalidade; e ir “pra outra banda”, do outro lado da Juçareira, brincar com uns bezerros ariscos, lambendo-lhe as costas, a fim de saciar a sua sanha feroz.
Até já sinto a bendita água, do Pericumã, a engolir meu suado e pecante corpo, num mergulho profundo e reparador, que se renova a cada dia, tal um ritual de todo dia.
Até já sinto o gosto da fumaça, a subir rio “arriba”, levando o cheiro saboroso da piaba assada em um braseiro improvisado e prenhe de espetinhos.
Até já sinto vontade de “acordar” e, de olhos fechados, viver “tudinho”, de novo.
Eita, vontade!

Governo realiza sessão pública para licitação do serviço de ferry-boat no Maranhão

Duas empresas com seus devidos representantes foram credenciadas: a Internacional Marítima e a Celte Navegação.

O Governo do Maranhão, por meio da Agência Estadual de Mobilidade Urbana e Serviços Públicos (MOB), realizou a sessão pública para Concessão do Serviço Público Aquaviário de Passageiros, Cargas e Veículos entre o Terminal da Ponta da Espera e o Terminal do Cujupe referente ao Processo Administrativo nº 85.837/2021 – MOB.

O credenciamento de propostas aconteceu durante a sessão realizada na manhã desta quinta-feira (26), no auditório da MOB, onde se reuniram a Comissão Setorial de Licitação e representantes para receber as propostas. O procedimento tem como finalidade selecionar a melhor proposta para a prestação do serviço.

Na ocasião, a Comissão Setorial de Licitação abriu a sessão pública e solicitou aos interessados que apresentassem suas credenciais à equipe de apoio. Após a análise desses documentos, observando os critérios estabelecidos no edital, duas empresas com seus devidos representantes foram credenciadas: a Internacional Marítima e a Celte Navegação.

Foram recebidos pela Comissão Setorial de Licitação os envelopes nº 01 e nº 02. O primeiro é referente aos lotes 01 e 02 e contém a proposta técnica e valor da outorga enquanto o segundo possui a documentação de habilitação.

Essa licitação é um marco histórico para o Governo do Maranhão que luta há anos para melhorar o serviço público do ferryboat para a população maranhense. E estamos felizes por termos concluído esse primeiro momento. Essa é a primeira parte da licitação e agora nossa equipe irá analisar e, assim, dará prosseguimento a licitação, ponderou Cícero Eugênio, presidente da Comissão de Licitação da MOB.

Após as análises, o resultado do julgamento da Proposta Técnica e do Valor de Outorga será divulgado em meio oficial e será aberto prazo para recurso. Toda a sessão pública foi transmitida ao vivo pelo Instagram da MOB.

Mais informações

Serão licitados dois lotes com direito de concessão de, no mínimo, 20 anos, prorrogável por igual período, no tipo concorrência de melhor oferta de pagamento pela outorga após qualificação de proposta técnica. Todos os requisitos legais atinentes foram contemplados, assim como as expectativas sociais, realizados por meio de Audiência Pública no dia 18 de março de 2021, às 14h, por videoconferência em decorrência da pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

Melhorias

O edital de licitação foi elaborado pelos setores técnicos da MOB a partir da contribuição da sociedade, através de audiência pública, dos apontamentos e notificações da Capitania dos Portos, Ministério Público, Vigilância Sanitária e Instituto de Promoção e Defesa do Cidadão e Consumidor do Maranhão (Procon/MA) a fim de melhorar a qualidade do serviço.

Fonte: https://www.ma.gov.br

Lembranças

Por Marcone

Ontem à noite, esticando até às primeiras horas da madrugada de hoje, fiz um passeio interessante dentre as lembranças. Vi-me em um lugar delicioso, que me marcou profundamente e nunca será esquecido, em seus mínimos detalhes. As pessoas fervilhavam e eu sentado, atento a tudo que me circundava e envolvia, muito observador e analista reafirmava a ideia sobre quanto o ser humano romântico, sentimental, sensível a qualquer forma de beleza, nunca está totalmente imune ou protegido em uma redoma, que lhe anule as chances de encontrar alguém capaz de sensibilizar seu coração, tocar-lhe ternamente a alma. Hoje, essa lembrança reafirma-me essa óbvia conclusão.
Conheço muitas histórias passionais, Em cada uma delas, os sentimentos que fluem são reativos. Algumas se asseguram na constante disposição do espírito ao exercício do bem e desprovimento do mal, exatamente o quê nós chamamos VIRTUDE. Mas nem sempre é assim e, às vezes, as pessoas tornam-se impulsivas, cedem ao ciúme, incitam-se à maldade, à vingança, quando se deixam levar pelo inconformismo de uma dor, atropelam-se com as palavras, constroem e vivem as mais diversas tramas, mescladas de amor, ódio, desejo, traição, revanches oportunistas, hipocrisia, falsidades, e interesses pessoais em detrimento do intento alheio e tantas vezes de seu próprio interesse. Agindo por fora e comumente com direta incidência sobre a manutenção ou destruição do relacionamento, ainda há a força negativa da inveja – sentimento mesquinho, sórdido, capaz das maiores atrocidades e perversões por parte daqueles que se sentem inferiores e descriminam-se, atestam-se incapazes, no entanto, altamente competentes para arquitetarem armadilhas e puxarem o tapete do SER oponente.
Conheço histórias de grandes relacionamentos que começaram em cabarés, casas de prazeres, prostíbulos, abafadas pela maioria de seus protagonistas, escondidas, ignoradas, transfiguradas ao perfil de lendas, por livres, fantasiosos e inibidores pensares, porém que, admiravelmente se equilibraram e subsistem na compreensão, na confiança e no respeito, independentemente de suas ascendências – lições, referências para evidenciarmos e compararmos pelo resto da vida, tanto de mulheres quanto de homens.
Lembro que nessa noite eu conheci mais uma história com essas particularidades tão comuns aos aventureiros do amor, dublês dos tentadores prazeres de alcova.
Enquanto me concentro para digitar, ao longe toca, e toca-me, uma música que gosto muito de cantar e já cantei para ouvidos atentos, receptivos, que me privilegiaram, cuja letra muito afina com essa questão aventureira, essa busca de suprimento das carências, uma bela página musical que tem tudo a ver, como se diz popularmente, que reforça minha reflexão sobre relacionamentos: “Garoto de aluguel”, de Zé Ramalho – a obra encaixa-se direitinho em nossa realidade de fugas, sonhos e prazeres alugados no burburinho dos sons de mil palavras simultâneas e música para embalar, ou nos sussurros da calada noite preta!

NO MUNDO DAS BONECAS

Por Zé Carlos

Dá-me uma angústia ao perceber o desapego, para não dizer o “desprezo”, que têm os pequeninos, buliçosos e destemidos, às brincadeiras mais simples. Brincadeiras, que nos guiaram vida a fora. Lamentavelmente, eles não mais se dão ao luxo de cultivá-las. O fascínio, que os aprisiona, são a televisão, o celular, o PC, o tablet, o iPhone e outros eletrônicos, que não conheço nem mesmo sei substantivá-los!
Cismo que os pequeninos já trazem no DNA “as digitais dos eletrônicos”. Sons, cores, movimentos, “tão vivos”, aprisionam-nos, certamente. O que não é um ato exclusivo deles, “não”. Inúmeros adultos, também, foram “pescados” pela “praga” da nossa era. Que, de verdade, tem muitas e muitas vantagens, porém há quem extrapole e se “hospede” em um mundo individual e infalível. O resto que se exploda. “Cada qual com seu cada qual”.
Não nos desvirtuemos. O que importa são os brinquedos. Como tivemos! “De graça”. Construídos ao sabor de nossa imaginação. Latas de óleo e de sardinha, “chinelas” gastas, caixas e caixotes, “taubas” velhas, rolamentos, canos, câmaras de bicicleta e de carro, melão de São Caetano, folhas de “pindoba”, vidros de remédios e de perfumes eram as “matérias primas” mais desejadas e caçadas. Valiam ouro, prata e bronze. Só para ficarmos no espírito olímpico.
Não esqueçamos dos cavalinhos de talos e folhas de bananeira, damas, dominós, petecas. A bola é um outro papo. E, em tempo de brincadeiras sadias e sem “patrulhamento político-ideológico”, tínhamos as arapucas, as “baladeiras” e as espingardas de talos de sororoca. “Morremos e matamos”, incontáveis vezes.
Ainda cabia “espectar”, de longe. Como era bom observar. Só observar o quintal tão movimentado. Invariavelmente, não podíamos estar “enfurnados” naquela atmosfera. O que nossos amigos iriam dizer. Não podiam saber. As gozações eram certas. Até alguns pais (…) não queriam meninos metidos com meninas. “Pronto e acabado”. Quanta barbaridade!
Observar era o que restava.
Observar surgirem as casinhas, magicamente, no quintal. A plena sublimação da fortíssima presença e influência materna na idealização de um cozinhar perfeito, na execução das demais tarefas domésticas e no cumprir, o sublime desempenho, o papel de mãe. Tudo com o mais amplo desvelo.
Quanta organização! Cada atriz a se entregar plena e verdadeira ao seu palco, à sua personagem, à sua história.
Nesse cenário, havia uma participação especialíssima. As bonecas. Que maravilhosas! Companheiras fiéis. Os mais diversos tipos e formas. Pacientes. Ouvintes perfeitas. Obedientes. Sem tpm, “arrelias”, queixumes (…) Nem quando eram “esquartejadas” pela ira da amiga ou irmã contrariada. Permaneciam no mais profundo silêncio, esperando o seu resgate, o seu renascer ou o seu fim. O lixo.
Que falta fazem as bonecas!

VIAÇÃO AÉREA JAÇANÃ

Por Gracilene Pinto

– Conta uma de caçada, Joca! – pediu o sobrinho Manuel.
E Joca contou:
“Como grande parte dos habitantes da Baixada Maranhense, Miguel vivia de uma lavourinha de subsistência e do aproveitamento de alguns produtos que a natureza punha à disposição de todos.

Apesar da degradação que os homens há séculos vêm ocasionando ao meio ambiente, em alguns lugares por ali ainda existia fartura de caça, pesca e frutos da terra, como o cará, a taioba, o palmito, o babaçu, e muitos outros frutos silvestres.

Miguel gostava de caçar aves, que em certas épocas do ano se espalhavam pelos campos alagados da baixada, como jaçanãs, japessocas, carões, marrecas, etc. E, como bom caçador, adorava contar suas façanhas aos amigos durante os serões na porta do seu casebre.

Mas, como se sabe, quem conta um conto aumenta um ponto, e é lendária a capacidade que têm os caçadores e pescadores em aumentar sempre muitos pontos. Ninguém pode negar também que o Miguel tinha um prazer peculiar nos exageros.

Uma noite, nosso herói contou, com riqueza de detalhes, sobre uma caçada às jaçanãs que ficou na história e da qual fora o personagem principal.

Ocorreu que, pretendendo caçar as aves vivas, Miguel havia amarrado uma corda grossa na própria cintura, onde atara também muitas cordinhas finas com pequenos laços nas pontas. Chegando à beira do Tanque Velho, logo avistou um bando de jaçanãs pousadas sobre as folhagens hidrófilas que cobriam praticamente todo o campo. Usando um cano de junco como respiradouro, o nosso caçador deslizou por baixo d´agua até o local onde pousavam as pernaltas. Então, muito delicadamente, foi laçando as perninhas das aves sem que as mesmas percebessem o que acontecia. Finalmente, quando já havia laçado todas as jaçanãs, Miguel levantou-se de supetão acima do nível da água, assustando as avezinhas que voaram levando-o pendurado pelas cordinhas.

A princípio o caboclo ficou muito assustado.

Apelou pra Deus, pra Nossa Senhora, pra São Vicente de Férrer e todos os santos seus conhecidos. Mas, aos poucos foi se acalmando, se acostumando com a situação, e começou a gostar da experiência de estar voando.

Voar era mesmo uma beleza, siô!
Ainda mais assim, sentindo o vento no rosto e sem o barulhão que faziam os Teco-teco quando voavam baixo sobre a cidade.

E as jaçanãs voavam alto, bem alto, cada vez mais alto. E longe, cada vez mais longe, foram levando sua carga sobre os verdes campos alagados da Baixada e sua luxuriante vegetação de juncos, pajés, aguapés, e as espécies arborescentes próprias dos campos inundáveis.
Sobrevoaram rios, ilhas, todo arquipélago e, até mesmo, o Golfão Maranhense com o Porto do Itaqui e seus imensos navios.

À essa altura Miguel já aprendera a controlar as jaçanãs. E puxando daqui, puxando dali. Ora nas cordinhas da direita, ora nas cordinhas da esquerda. Foi mudando a direção das avoantes de volta para a Baixada até avistar a torre da secular igrejinha barroca da sua querida São Vicente Férrer, quando, então puxou do canivetinho que trazia no bolso da calça e começou a cortar as cordinhas. Uma de cada vez. Até restar somente as duas últimas cordinhas, que foram cortadas sobre o terreiro de sua casa, permitindo-lhe realizar o pouso com total segurança.

Finalmente estava em casa, são e salvo!
E, ao pisar no chão de sua terra natal, o homem respirou fundo e pensou:
– Uma aventura tão fantástica e nem posso contar pra ninguém. Quem é que vai acreditar que estive hoje em São Luís e ainda por cima pilotando a Viação Jaçanã?

(Texto de Gracilene Pinto no livro ESTÓRIAS DO VELHO JOCA – Imagem da Inernet). Com Chico Pinheiro, Custodio Roque Tavares e Eliana Castela.