Vejo-me atraído, mais uma vez, pelas belezas semânticas e fonológicas, que nos cercam e, muitas vezes, “não são enxergadas”. Mas é algo, que me chama e que, poeticamente, me atiça.
E essas riquezas, que invadem e fortalecem o ato criativo, podem ser provadas até com “uma palavrinha”, que achamos comum, sem charme, que não recebe o seu devido valor. Como, por exemplo, a palavra do nosso cotidiano, que “quase ninguém liga. ‘DORMIU”. E não duvidem, que ela se desdobrará e surpreenderá.
Afinal, não é todo dia que posso dizer que “alguém DURMIU no ponto”. E, aí, fica a critério de cada leitor. Se dormiu no ponto de ônibus ou foi solenemente engabelado.
E, como não ficará somente nessa situação acima, vamos vê-la em uma providencial e sábia reprimenda, ao desenfreado desperdício de energia, em tempo de contas astronômicas e inexplicáveis. “Por que a luz DURMIU acesa?!” Em perfeita confirmação de que precisamos cuidar melhor de nossas minguadas e tão combalidas finanças.
E, como nossa palavra não cochila no ponto, a exaltação do paradoxo se impõe em uma sentença, que dá nó no cerebelo. “DURMIU acordado!” E, para se glorificar, não abrindo mão da exaltação, só mesmo assumindo a feroz redundância, que não se deixa enganar por alguma dúvida. “Agora, DURMIU durmino, pra valê”.
E, sem se fazer de rogada, traz o indivíduo, entronado em tanta esperteza ou em tanta ingenuidade, para não dizer algo pior. “Feiz qui DURMIU, pra cumê u .. du bêbo, ou DURMIU em cima da riqueza ou DURMIU muito, que perdeu a chance”.
E a candura, também, tem vez com nossa palavrinha. E tantas emoções desperta. “DURMIU feito um anjinho!” Em uma cena da mais pura maternidade e carinho.
E, no universo amoroso, causa ciúmes, “ao hiperbolizar a inveja” de quem nunca teve a sorte e o prazer de desfrutar de tão terna e saborosa sinestesia. “DORMIU no doce beiço da morena”.
E, de verdade, se transmuda em insinuações metafóricas, para estabelecer o terror, que abalará os mais sisudos alicerces, ao sentenciar o mais temível de se ouvir. “DURMIU virado no cão, DURMIU como um corisco, DURMIU doidinho de raiva, DURMIU bufando”.
E, para não perder a viagem, vem em tremendas antítese e ironia, quando quer zombar, sem pudor algum, centrada em ditos dos melhores. “DURMIU rico, e acordou pobre”; e “DURMIU herói, e acordou bandido”.
E, como quero criar uma sadia brincadeira, vou aguçar a criatividade de vocês, para se manifestarem sobre algumas sentenças, que merecem ser contextualizadas. “DORMIU de maduro, DORMIU a tarde inteira, DORMIU, que se babou todo, DORMIU roncando, DORMIU no braço de Morfeu, DORMIU debochando da gente, DORMIU mole … de tanto brincar, DORMIU ao relento, DORMIU desassossegado, DORMIU inocente, DORMIU no mijado” … E espero as interações …
E, num rasgo de cinismo, tão cruel quanto vergonhoso, ao dar um íntimo flagrante, que devia ser respeitado, o malogrado indivíduo sai “a matraquear”, atestando a sua pequenez e o seu mau-caratismo. “Ela DURMIU arreganhada!”
E, “seim isquecê u bindito baixadês”, me delicio com “a nossa simpleza”, que sem alguma preocupação “sortamo: DRURMIU cum u cagá dus pinto”.
E, para finalizar, nada melhor de que “a despedida final” caiba em fúnebres e não desejados eufemismos. “DURMIU com o sorriso da morte ou DURMIU como um condenado ou DURMIU pra sempre!”
O certo, mesmo, é que “DURMIU o recém velho ano”; e espero, de verdade, que ninguém “DURMIU” com o meu texto!!! Ou “DURMIU”?!

