CONHECER O DESCONHECIDO

Por Zé Carlos

Ainda pouco, ao encontrar com um amigo, vivi uma situação, que há muito me intriga e me incomoda. Conhecer alguém, que não conheço. Não duvidem. É isso mesmo. Aposto que, também, já tiveram de enfrentar a situação enfadonha de ter que conhecer alguém. À força.

O referido amigo queria convencer-me de que conhecia uma pessoa, que sofreu um terrível acidente. Ante minha negativa, ainda que disfarçadamente, saiu enraivecido.

Após muitas andanças, país a fora, chego à conclusão de que São Luís é única, nesse quesito. Senão, vejamos. Quando ocorre um acidente ou situação inusitada, em qualquer canto da Ilha, sempre há alguém para nos informar e nos convencer de que somos “íntimos” dos envolvidos. Mesmo que nada saibamos, de algo ou alguém, passamos a ser grandes conhecedores. Em algumas situações, somos até cúmplices. Tudo conspira para isso. As referências são “batata”, como dizem os baixadeiros. Vem à tona o nome de um dos envolvidos. Começam as apelações. É o amigo do meu amigo. O irmão de fulano de tal. A namorada do teu primo. O melhor é dizermos, logo, que conhecemos. O melhor é conhecer sem conhecer, sem saber, sem ter noção … Evita mais e mais amolações.
Entretanto, fugir dessas situações é algo quase impossível em nossa cidade. Aqui, o normal é o interpelador introduzir-se na cena relatada. Chega ao cúmulo de afirmar que presenciou o fato referido, mesmo estando a quilômetros de distância. “Eu vi, quando tudo aconteceu”. Fora, que os mais ávidos em querer repassar informações, as mais fidedignas possíveis, fazem previsões, fornecem laudos e, até, reproduzem diálogos, que não ocorreram. Haja imaginação! Haja testemunhas! Também, irresponsabilidade!
Agora, imaginemos que isso tudo acontece em uma cidade, em que é “normal” as pessoas conversarem consigo mesmas, em ruas, praças, supermercados, bancos, invariavelmente, tão entretidas que, muitas vezes, nem notam a presença de um amigo, um parente, um vizinho.
Isso me fez lembrar a história de dois beberrões, que se encontraram em um bar, entornaram todas, e mais algumas, dividiram a despesa, adentraram no mesmo táxi e descobriram que eram pai e filho, só quando chegaram à porta de casa. Mas, isso é assunto para outro papo!

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