COISAS E LOAS III

O “mundo” das pescarias cerca-se de situações pitorescas. Algumas vezes, beirando o surreal. Ou indo além.

Nesse ambiente, um episódio impressionou-me, acompanha-me e me intriga para todo o sempre. A história, tantas vezes referida, da pecaminosa e “irrecomendável” captura de um filhote e do desespero da “mamãe boto”. Quanta angústia! Tanto choro. Choro gemido, doído, lancinante, “parecendo até gente”. O tempo, a ser juiz implacável, fez-se presente. Até hoje, ainda me dá arrepios.

Entretanto, em nossa cidade, não só pescarias trágicas. A nossa cidade é pródiga em “causos” hilários e “sabidos”.

Dizem as “boas” línguas, e eu não invento, que um exímio pescador tinha, como pontos sagrados de sua prática, as imediações da “barraca” de Fula. Constatando que já não conseguia “visgadas premiadas”, “estudou que estudou” um meio para acabar com o problema. E o resolveu. Uma extensíssima vara de bambu, que pudesse alcançar a outra “banda” do rio ou a “boca” da Juçareira. Uma verdadeira vara de pescador! Assim fez e fez-se. Preparou-se e partiu, decidido ao sucesso. Logo, na “primeira pescada”, veio-lhe uma traíra, uma “senhora” traíra, que só mesmo um pescador para mensurá-la. Forte e brigadeira. Terminantemente, valente. Com fome de linha, a “galopar”, senhora de si, em tão fecundo leito fluvial. E, finalmente, vencida.

A expectativa apresentou-se plena, em tão grave momento de glória. Restava-lhe saborear a vitória. Puxou-a, puxou-a, puxou-a. Puxou-a, com tanta força, que ela rompeu água e ar vorazmente. Alcançou uma considerável altura, testemunhada pelo calor abrasante do sol a pino. Esperou vê-la no capim de marreca macio, a “serelepiar”, ainda guerreira, como só uma traíra sabe ser. Demorou, demorou. Finalmente, escutou apenas “um baque” chocho, sem vida. Sem entender, correu a buscar seu troféu. Grande decepção! Só as espinhas. Não contou que uma vara, por demais comprida, oferecesse uma bela refeição, aérea, aos famintos e sabidos urubus. Total decepção!

Decepção tamanha, que o levou a abandonar o seu mais sagrado passatempo e recolher-se, para sempre, uma vez que a molecada não lhe dava trégua ao sair de casa.

O que me intriga, imensamente, é saber onde estava o “olheiro” que “matraqueou” tal proeza.
Na verdade, há “nada a se espantar”, uma vez que até uma traíra de óculos, “entrada em anos”, foi capturada nas misteriosas águas do piscoso Pericumã.

E resgatemos, também, a “esperteza” de um amigo. “O nome é que faz o fuxico”. “A língua está coçando pra contar”. Depois revelarei. Esperteza essa, de que eu fui testemunha.

Comprava os melhores peixes, para justificar as suas ausências, junto a sua companheira. Só acarás e cabeças gordas, “criadas”. Artimanha desfeita por meu pai, quando lhe descobriu a tarrafa que “nunca tinha visto água”, naquele dia. Assim, passou a “parar em casa”, dormir a “tarde inteirinha” e não mais deu suas “escapadas” nem “contou vantagens” em suas aventuras de “pescador”. “Besta!”

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