A SANTA MÃE DA CHAPADA

Por Zé Carlos

Nos confins da Chapada, em um casebre, extremamente magro e banguela, desprovido de viva e saudável agitação, arrastava-se uma anosa “cabôca”, ferozmente presa àquela cadência, que se confundia com o seu infindável dia. Entretanto, a vida, poucas vezes, despertava e lhe aparecia, a fim de manter aquela tênue centelha, acesa.

Restava-lhe só uma persistente réstia de vitalidade, enfim, que a impulsionava e a mantinha, em sua simplória existência. Sacra existência, a seguir permeada por “um tiquinho de branquinha”; por “galinhos de oriza, de arruda, de alecrim, de manacá”; por uma onipresente, inquebrantável e rubra figa; por duras penitências e orações; por muita e muita fé. Existência sagrada, a resgatar “amor perdido”, a amansar “amor bandido”, a desvendar sonhos, a espantar “mufina”, a quebrar “mal olhado” e a emendar “arca caída”. Verdadeiramente, a mais sacra existência de uma “velha e santa benzedeira”, vivificada em todo o seu encarquilhamento, como se o tempo estivesse a lhe marcar com todo o seu sofrer. O de agora e o de sempre.

Ali, naquele ambiente, macilento e anêmico, agarrava-se, sôfrega, às ladainhas, simples e dolentes, a invadirem o ocaso, desmaiante e saudoso de todas as campinas e seus mistérios. Então, o que lhe restava?! Só um minguado tudo! Um espectro de cachorro, perdido em tamanha magreza e em uns uivos mirrados; e a sua fiel companhia, a lhe consumir em sua vagareza. O cachimbo encardido, como tudo que ali havia. O copo curinga, encardido e amassado, de alumínio, que se fazia esquecido na chorosa e hirta estaca, à espera do guloso “mergulho” na salobra água do encardido pote. O prato, a colher, a xícara, o papeiro, a panela, a descansar, também encardidos, “num cofinho”, “de boca aberta”, dependurado bem “no seio” da cozinha, a lhe atestar a valia do tão pouco. Certamente, o seu verdadeiro tesouro.

Ali, naquela modorra, ia-se, com certeza, encontrar a nossa fiel “cumadre”, a nossa fiel “tia”, a nossa fiel “madrinha”, a nossa fiel “mãe do mato”, acocorada, ao lado de suas encardidas tacurubas, em sua “pose” de sempre, com a puída e única saia de chita entre as pernas, a soprar o turrento carvão, que teimava em não “apegar”. No entanto, em seus mistérios, despendia um bafo quente a lhe encher os olhos de um ardume persistente, envolto em um mar de cinza, que invadia a cozinha, toldando-lhe os ralos cabelos de muitos e muitos e muitos pontos esbranquiçados, a lhe atestarem o quanto foi árdua, e plena, a sua jornada.
E que jornada, a da “mãe” Cipriana!

Imagem da Internet.

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