O Primeiro Carro

Por Ana Creusa

Minha mãe, Maria Amélia, alimentava o sonho de possuir um carro. Em 1998 pediu para eu providenciar a compra de um carro para ela e avisou:

– Quero um carro novo e eu que vou pagar!

Providenciei um consórcio de automóvel, coloquei no nome dela, sem problemas. Quando ela foi contemplada com a Carta de Crédito, falou:

– Quero meu carro de cor vermelha.

Assenti com a cabeça. Saí do trabalho mais cedo e fui buscá-la para irmos à Concessionária Alvema, na Rua das Cajazeiras, para comprar um Fiat Pálio.

Quando cheguei à sua casa, mamãe me disse: não posso ir porque não consegui destrocar o dinheiro da entrada: que estava em moedas de um real.

Procurei saber o valor e ela falou: são R$ 600,00 (seiscentos reais). Você vai ficar com vergonha de levar esse dinheiro assim. Achei o fato até engraçado e disse: – vamos levar assim mesmo, é dinheiro, não é?

Assim saímos com aquela sacola pesada de dinheiro. Chegando à Fiat, fui logo avisando que parte do dinheiro da entrada do carro estava em moedas de um real.

A vendedora Rose levou a sacola para o Caixa e começaram a contar – o gerente Rafael soube da história e veio conhecer a valente senhora que descansava em uma confortável poltrona.

Terminaram de contar o dinheiro: exatos R$ 600,00 (seiscentos reais).

As surpresas não pararam por aí. Quando fomos fazer o financiamento, como mamãe acabara de completar setenta anos, a vendedora falou que ela não poderia mais fazer financiamento em seu nome. Nesse momento, eu retirei os meus documentos da bolsa e os entreguei para a vendedora, para que o financiamento saísse em meu nome.

Mamãe, com ar de decepção, falou:

– Então, já posso morrer, não posso mais colocar nada no meu nome!

Eu entendendo a desolação da minha mãe, falei à vendedora:

– Se não colocar o carro no nome da minha mãe, vamos comprar em outro local.

A vendedora com receio que aquela ameaça se concretizasse, disse:

– Vou falar com o gerente.

Na sua volta disse: – vamos abrir uma exceção! E mamãe assinou o financiamento.

Escolhemos o carro: Pálio Vermelho!

Quando saiu os documentos do carro, ele estava no nome de mamãe, só que a data de nascimento dela estava escrito “12 de novembro de 1938”. Dez anos mais nova! Somente nesse momento ficamos sabendo a “mágica” que foi feita para autorizar o financiamento.

Depois desse primeiro carro, mamãe teve outros carros em seu nome.

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