Por Ana Creusa
Era noite de quinta-feira, 9 de agosto de 1959. A lua despontou no horizonte indicando que a lua nova se despedira, com a chegada do quarto crescente. O satélite brilhava sobre a noite escura, colocando à mostra a paisagem do campo fatigado pelo sol escaldante do dia anterior, típico do verão da Baixada Maranhense.
Usando sua canoa como transporte, levava próximo a si uma criança recém-nascida, envolta em cueiros macios, dentro de um cofo, que a protegia do sereno, permitindo que aquele corpinho quase sem vida conseguisse sorver o ar puro.
Procurou não pensar em nada. Mas a imagem da mãe daquela infante, que ficara aos prantos, ainda na convalescência de um parto complicado, não lhe saía da mente.
A criança estava sem forças para sorver as gotículas do leite materno, decerto, não resistiria àquela noite fria sem se alimentar.
O pai lembrava do seu primeiro filho[1], o qual viu andar e falar, mas com relação àquela filha, não teria esse direito, vez que, contava com apenas treze dias de nascida e já estava doente de morte.
As palavras da esposa, antes de ele sair de casa, martelava em sua cabeça:
– Você me prometeu que minha filha me daria muitas alegrias[2], veja como ela está, não passa desta noite!
– Acalme-se, minha velha, dizia o pai.
Em um ímpeto, preparou tudo e seguiu viagem. Iria à casa do tenente Floriano Mendes[3], na fazenda Boa Vista, do outro lado do campo. Na saída disse à sua esposa:
– Reza para que ela chegue viva na casa de Floriano. Aquele homem é um gênio e há de salvar nossa filha.
Depois de meia hora, forquilhando a canoa com todo vigor dos seus braços fortes, apenas tomando cuidado para que o banzeiro não molhasse a pequena. Falou algumas vezes:
– Aguente firme, minha filha. Vou procurar remédio para você.
Chegou ao pequeno porto de canoas. A curiosidade sobre a vida ou morte da menina era tanta que mal atracou e foi ver se ela ainda respirava. Percebeu que sim.
Pegou aquela “coisinha” nas mãos e caminhou até a casa do tenente – já deveria passar das vinte horas; tudo apagado. Nenhum petromax aceso. Concluiu que já dormiam.
Aproximou-se da casa e falou:
– Floriano, sou eu, José Santos. Vim com uma filha doente.
Logo uma luz se acendeu e aquele homem alto e magro, apareceu com um ar de surpresa. Olhou ao lado e perguntou:
– Por que você não trouxe sua filha?
José estendeu o braço direito e mostrou a criança que cabia em sua mão. Com a luz da lanterna, percebeu que a criança estava de coloração roxa.
Floriano olhou. Pegou a criança. Disse que o caso era difícil. Exibiu um vidrinho com um líquido e colocou na boca da criança. Logo depois ela chorou, parecia um gemido de dor.
Ele pegou um óleo e passou no peito da criança, que depois se pôde ver a fraca respiração.
Aviou uma receita e despachou o pai.
– Vá, quando você chegar, ela vai estar ainda melhor. Ela está em crise de asma.
Continue ministrando o remédio que ela vai melhorar. Mas, saiba que asma não tem cura e que ela vai ainda dar muito trabalho.
A mãe que já havia chorado muito. Quebrou o resguardo de vez, pois já estava no sereno aguardando a chegada do marido que disse:
– Ela está viva! O tenente salvou nossa filha. Ele disse que ela teve uma crise asmática, já está bem melhor. Está aqui sua filha Ana Creusa, ela ainda vai comer muito pirão.
E assim cresci ouvindo essa história de Amor que me ligaria para sempre ao meu pai – meu herói e protetor.
[1] Ademir de Jesus, o primeiro filho do casal, faleceu com 1 ano e 7 meses de doença desconhecida que, mais tarde, soube-se que se tratava de Difteria (crupe). A partir desse evento traumatizante, a família ficava aflita quando algum filho adoecia (CVA, 2006).
[2] Contava papai que quando mamãe estava no início da gravidez ficou muito triste “como iria criar mais um filho com toda dificuldade que viviam; em consolo papai dizia: – te conforma, minha velha, essa criança vai te dar muitas alegrias.
[3] “Floriano Mendes era enfermeiro e, na ausência de médicos, exercia os seus préstimos para curar quem o procurava”. (Francisco Viegas. Curiosidades Históricas de Peri-Mirim, 2020, p. 166).
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OBS: Esse relato está no Prólogo do livro: Cem Anos de Gratidão, de Ana Creusa.
Foto de destaque: José dos Santos e seu filho Carlos Magno, ambos in memoriam.
