Por Ana Creusa
Hoje, o calendário marca 25 de fevereiro. Para muitos, apenas um dia comum; para nós, o marco de nove anos de uma ausência que se transformou em presença constante por meio do exemplo. José Santos não foi apenas um homem; foi um projeto de vida bem-sucedido, nasceu em Palmeirândia e criado nas dificuldades do Sítio Jurema.
Há exatos 9 anos, o Guerreiro da Jurema atendia ao chamado do Pai. Em um sábado consagrado à Maria, José Santos nos ensinou que a partida pode ser um ato de união. O leito de hospital preenchido por sua descendência, transformando a dor em uma despedida digna de sua nobreza. Que ele continue intercedendo por nós lá do alto, onde a alegria é infinita.
Filho de Ricardina, uma mulher negra e solo, José carregou no sangue e na pele as contradições de um Brasil de bailes divididos. Mas ele nunca permitiu que as cercas do preconceito limitassem o tamanho do seu espírito. Com apenas três meses de escola, ele fez do “Livro do 2º Ano” o seu Universo. Enquanto outros precisavam de bibliotecas, José precisou apenas da vontade: decorou afluentes do Rio Amazonas, memorizou lições de moral e transformou o pouco saber em uma sabedoria que nenhuma faculdade ensina.
A Missão que Venceu o Sonho
O Exército Brasileiro perdeu um clarinetista, mas a família Santos ganhou um herói. Ao abdicar da carreira militar para cumprir a promessa feita à mãe no leito de morte, José tornou-se o general de uma tropa de irmãos. Cuidou deles, do mais velho ao pequeno Manoel, de apenas quatro anos. Com mãos que amansavam burros bravos e venciam na “cana-de-braço”, ele também conduziu, com doçura e firmeza, o destino de uma linhagem.
Sua autoridade era natural. Não precisava de gritos, apenas de presença. A imagem dos irmãos — depois homens feitos e oficiais da lei — cedendo-lhe a cabeceira da mesa é o retrato mais puro do que significa respeito.
O Amor e o Legado
Ao lado de Maria Amélia, sua companheira de vida e de fé, José construiu um jardim de onze filhos. Ele não era apenas um pai; era um educador nato. Ensinava enquanto trabalhava, liderava a comunidade de Cametá em Peri-Mirim pelo exemplo e mantinha o sorriso fácil de quem sabia que a verdadeira riqueza não se conta em moedas, mas em união.
Aos 94 anos, como quem fecha um ciclo divino, ele realizou seu último e grande desejo: construir sua casinha na Jurema, o chão onde tudo começou, para celebrar a mãe que lhe deu a vida. José partiu em 2017, mas deixou as sementes da “Ação de Graças” plantadas no coração de Cametá.
A Imortalidade
José Santos ocupa a Cadeira nº 24 da Academia de Letras, Ciências e Artes Perimiriense (ALCAP). É justo. Um homem que leu o mundo com os olhos da alma e escreveu sua história com a tinta da honradez merece a imortalidade.
Pai, nove anos se passaram. O senhor não está mais fisicamente em São Luís ou na Jurema, mas cada vez que nos reunimos, cada vez que um de seus descendentes escolhe o caminho da retidão, é o seu clarinete que ouvimos tocar.
