Baixada Maranhense: (… gotícula de História II)

Por José Carlos Gonçalves

HISTORIETA DE MEU AGRADO XI (… gotícula de História II).

… a aventurosa e sacrificante odisseia do viajante baixadeiro não se encerrava na busca pela embarcação ou até o embarque, o que já era o bastante, a acabar com o seu emocional.

Aventura, mesmo e de direito, começava ao adentrar o barco, “intupetado di gênti, misturada” com porcos, bodes, galinhas … a exalar os seus fortes odores, juntados com o bodum de cada um, confinado naquele espaço, mais povoado “que ninho de tucanguira!”

E, se isso não bastasse, se acrescentava a náusea, provocada pelo enjoativo balanço, revirando dos mais fracos aos mais fortes estômagos, “que queriam sair pela boca”, a provocar gofadas e vômitos.

E não parava por aí. O calor insuportável imperava no acanhado ambiente, castigado pelo cheiro nauseabundo, que brotava, silencioso e sufocante. Do “balaio”, de cada um, a pulular de todas as direções, em uma liberação de “cheiros, represados na providencial latinha”, aos odores da comida, a ferventar no fogão, do barco, e a se espalhar em uma vaporosa nuvenzinha, debochante da fraqueza humana.

Do choro intermitente de crianças, desesperadas, ante o desconhecido, “ao aperto” de não ter um simples banheiro à disposição. E, realmente, se apertava até passar do limite do tolerável, em uma hercúlea façanha. Do ranger das redes esticadas, “uma pur riba da ôta”, a fazer o fundo musical do vai e vem, provocado pelas vagas, que nunca se cansavam de jogar o barco, como se fosse de papel, solto, por moleques, nas enxurradas das chuvas de maio, só para ver até onde aguentava e poder vibrar com o seu soçobramento.

Em alguns momentos, a dependência da maré e do vento era predominante. E a viagem se arrastava com o humor do tempo. Vagaroso e debochado.
“Só muita precisão” ou vontade de “ser batizado”, para ir à Ilha. Ou para negociar ou para conhecê-la.

Triste é que o tempo pode, ou não, voar e “a poupança Bamerindus ‘não’ continua numa boa”, a verdade é que a Baixada continua a sofrer das mesmas mazelas, que comprometem o deslocamento, decente e civilizado.

E a pergunta, que teima e não quer calar. “Será se ‘as cabeças de bufa’ tão interradas nos caminhos e nos leitos dos rios?! Ou avoam sobre as cucas dos baixadeiros?!” Mistérios!!!

A Baixada não sai do atraso, porque é cômodo. Um celeiro de votos mudos, cegos e surdos!
Que o meu santinho Santo Inácio de Loiola tenha piedade de nós!!!

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