A Presença Infinita de Maria Amélia

Por Ana Creusa

Mergulhar na trajetória de Maria Amélia, buscando traduzir a força da mulher que foi o alicerce de sua família e a guardiã de sonhos, é revisitar um passado que insiste em não passar!

Completam-se hoje quatro meses desde que o relógio da vida de Maria Amélia Pinheiro Martins dos Santos silenciou, naquele 27 de outubro. Para quem ficou, o tempo parece ter uma contagem própria: não são apenas 120 dias, mas quatro ciclos de lua onde a saudade aprendeu a ocupar os cômodos da casa do Outeiro da Cruz que ela e papai fizeram no intuito de abrigar a prole para sempre.

Falar de Maria Amélia é falar de uma mulher que nunca coube nos moldes estreitos de seu tempo. Nascida sob o sol de Ponta de Baixo, povoado do município de Peri-Mirim/MA, ela trouxe consigo a firmeza de quem sabia que a vida exigia mais do que apenas aceitação.

A frustração por não ter seguido os estudos transformou-se em uma missão sagrada: nenhum filho seu seria privado do saber. “Meus filhos não são teus empregados”, dizia ela à professora, com a autoridade de quem protegia a educação como um tesouro.

Ela era a “Galinha de Pinto”, como carinhosamente dizia Carlos Magno. Debaixo de suas asas, a prole cresceu protegida dos gaviões do mundo e das injustiças que ela tanto combatia. Maria Amélia não era apenas mãe; era a justiça de mãos calejadas, a médica rudimentar que curava corpos e almas, trazia vidas ao mundo com a precisão de quem tinha o espírito guiado por algo maior. Nenhuma parturiente perdia a vida em suas mãos, pois a morte parecia recuar diante da sua determinação.

Hoje, quatro meses após seu encontro definitivo com o companheiro José Santos e o filho Carlos Magno no Jardim da Paz, a ausência física é um fato, mas sua essência é uma herança viva. Ela está em cada oração da “Sexta Santa” que ainda ecoa na memória, em cada pé de planta dos jardins que ela tanto amava cultivar e no rigor ético que deixou para seus filhos.

Quatro meses sem o seu olhar vigilante, mas com a certeza de que a “Ação de Graças na Jurema” agora conta com uma intercessora no céu. Maria Amélia não partiu; ela apenas mudou de plano, deixando para trás o exemplo de que a verdadeira força não vem do corpo, mas de um espírito que, mesmo aos 96 anos, nunca deixou de lutar pelos oprimidos e por sua família.

Maria Amélia que, durante décadas governou a casa e criou os filhos com um pulso forte e uma disciplina inabalável, viu o tempo inverter os papéis de forma inesperada. Com o avanço da doença, aquela postura séria e o olhar de autoridade deram lugar a uma doçura esquecida, como se ela tivesse decidido retornar aos dias de sol da própria infância. No apagar de sua luz, longe das preocupações com as obrigações do lar, seus olhos brilhavam ao ganhar uma boneca nova e sua maior alegria residia no prazer simples de saborear um doce, revelando uma leveza que a rigidez da vida adulta havia mantido escondida por tanto tempo!

A imagem da foto destacada revela o exercício de pintar figurinhas se tornou uma ferramenta poderosa para amenizar os efeitos da doença, permitindo que ela vivenciasse o presente com a leveza de uma criança. Ela pintou muitos livros – guardados como o acervo do Amor.

Que o tempo, esse senhor da razão, transforme a dor destes quatro meses na mais pura e doce Gratidão por termos caminhado ao lado de uma gigante. Maria Amélia permanece, agora e sempre, na raiz de cada história que contamos.

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